Ana Isabel Canilho Almeida Francês
Enfermeira Especialista em Enfermagem Comunitária
ULSSM/Centro Ambulatório II
38433@chln.min-saude.pt
ORCID 0009-0002-5636-1182
Elisabete Maria Jesus Matos Pereira Mesquita
Enfermeira Especialista em Enfermagem Comunitária
ULSSM/Equipa Coordenadora Local de Santa Maria
20282@ulssm.min-saude.pt
ORCID 0009-0000-9140-8607
Andreia Eliana Farroba Rocha
Enfermeira Especialista em Enfermagem Comunitária
ULSSM/Centro Ambulatório – Hospitais de Dia
16418@chln.min-saude.pt
ORCID 0000-0003-1948-8942
Andreia Sofia Cabrita Martins
Enfermeira Especialista em Enfermagem Comunitária
ULSSM/Hospital Dia de Doenças Infeciosas
20001@chln.min-saude.pt
ORCID 0009-0008-0986-8400
Os profissionais de saúde estão sujeitos a contextos laborais exigentes, frequentemente associados a comportamentos sedentários e ao aumento do risco de doenças cardiovasculares. A promoção da atividade física em contexto laboral constitui uma prioridade de saúde pública.
Para avaliar o impacto de uma intervenção institucional de promoção da atividade física nos colaboradores da Unidade Local de Saúde de Santa Maria durante oito semanas, realizou-se estudo descritivo da mesma, sustentado na Teoria da Autodeterminação e na Teoria dos Estágios de Mudança.
Participaram 126 colaboradores, organizados em 29 equipas, tendo sido registados mais de 52 milhões de passos. A maioria dos participantes (94%) classificou a iniciativa como motivadora e 55,8% reportou elevada confiança na manutenção da atividade física após a intervenção.
A intervenção apresentou impacto positivo na motivação, no envolvimento e na adoção de comportamentos saudáveis, evidenciando o papel estratégico do Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária na promoção da saúde em contexto laboral.
No contexto dos cuidados de saúde, os profissionais de saúde estão sujeitos a elevados níveis de stress ocupacional, carga horária prolongada e intensa, limitações estruturais que contribuem para hábitos de vida sedentários, com impacto direto na sua saúde física e mental, favorecendo o sedentarismo e aumentando o risco de Doenças Cardiovasculares (DCV). O sedentarismo é reconhecido como um dos principais fatores de risco modificáveis para a mortalidade prematura, sendo responsável por um número significativo de mortes evitáveis a nível global 1,2.
A evidência mostra que intervenções de promoção de atividade física em contexto de trabalho tendem a produzir ganhos consistentes, sobretudo quando combinam estratégias motivacionais, facilitação organizacional e suporte social entre pares 3,4,5.
Paralelamente, recomendações internacionais reforçam que “alguma atividade é melhor do que nenhuma” e que reduzir o tempo sedentário deve ser uma prioridade transversal6.
Em alinhamento, com a Estratégia Nacional para a Promoção da Atividade Física, da Saúde e do Bem-Estar (2016–2025), definida pela Direção-Geral da Saúde, e com o Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física 2023, o Núcleo de Enfermagem Comunitária (NEC) da Unidade Local de Saúde de Santa Maria (ULSSM) implementou o Desafio Comunidade Ativa, lançado a 29 de setembro de 2024, no âmbito das comemorações do Dia Mundial do Coração, e dirigido a todos os colaboradores da Instituição 7,8.
O presente artigo apresenta os principais resultados e o impacto desta intervenção, evidenciando o contributo do Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária (EEEC) enquanto agente estratégico na promoção de comportamentos saudáveis no contexto laboral, através da identificação de necessidades, mobilização de equipas e operacionalização de intervenções sustentáveis orientadas para a literacia em saúde e para a mudança comportamental.
Avaliar a perceção de motivação para a prática de atividade física, enquanto estratégia de prevenção das doenças cardiovasculares, entre os colaboradores da ULSSM, através de uma intervenção de saúde comunitária participativa.
Realizou-se um estudo descritivo, desenvolvido no âmbito da intervenção institucional de promoção da atividade física em contexto laboral. O Desafio Comunidade Ativa decorreu durante oito semanas e foi dirigido a todos os colaboradores da ULSSM, com participação voluntária, de acordo com regulamento previamente divulgado.
A equipa organizadora, o NEC da ULSSM, participou ativamente na intervenção, assumindo um papel de liderança, dinamização das equipas e apoio motivacional.
A intervenção baseou-se numa abordagem de saúde comunitária participativa, com o apoio de líderes locais e equipas multiprofissionais. Foi adotado um modelo de educação para a saúde, baseado na Teoria da Autodeterminação e da Teoria dos Estágios de Mudança, que sustentam que a motivação intrínseca é fomentada pela perceção de autonomia, competência e relação social 9 – 12.
As estratégias implementadas incluíram: dinâmicas motivacionais adaptadas ao estádio da mudança comportamental; monitorização dos progressos através de aplicações móveis de contagem de passos; comunicação motivacional contínua via correio eletrónico personalizada e aplicação de questionários de autoavaliação da perceção de motivação e confiança na manutenção da atividade física, às 4 semanas e no final da intervenção.
Participaram no desafio 126 colaboradores, organizados em 29 equipas. A amostra foi maioritariamente constituída por mulheres (92%), com idade média de 40 anos. Durante o período de intervenção foram registados 52 902 270 passos, evidenciando elevado envolvimento dos participantes.
Relativamente à perceção de motivação, 94% dos participantes classificaram a iniciativa como motivadora, enquanto 6% reportaram níveis moderados ou baixos. No que respeita à confiança na manutenção da prática de atividade física após o término do programa, 55,8% referiram elevada confiança, 37,2% confiança moderada e 7% baixa confiança.
A análise qualitativa evidenciou ainda impactos positivos adicionais, nomeadamente o aumento do espírito de equipa, o reforço da coesão entre serviços e uma maior consciencialização para a importância da saúde.
O Desafio Comunidade Ativa demonstrou ser uma intervenção eficaz na promoção da motivação da atividade física para a prevenção das DCV entre os colaboradores da ULSSM, evidenciando o impacto da atuação estratégica do EEEC na promoção da saúde em contexto laboral. A iniciativa contribuiu para a promoção de ambientes de trabalho mais saudáveis, participativos e sustentáveis, assentes em práticas fundamentadas na evidência científica.
A evidência recente sugere que intervenções no local de trabalho, especialmente as que incluem componentes comportamentais e organizacionais, podem melhorar níveis de atividade física, indicadores de saúde percebida e, em alguns contextos, marcadores cardiometabólicos12,13.
Os resultados obtidos são consistentes com a evidência científica que demonstra a eficácia das intervenções de promoção da atividade física em contexto laboral, particularmente quando incluem componentes comportamentais e organizacionais4,6,12,13. A elevada adesão e os níveis de motivação reportados sugerem que a intervenção contribuiu para a redução do comportamento sedentário.
A utilização de modelos teóricos reconhecidos poderá ter desempenhado um papel determinante na adesão e no envolvimento dos participantes, ao permitir a adequação das estratégias motivacionais às necessidades individuais.
Para as instituições de saúde, este tipo de abordagem é particularmente relevante pois os profissionais são simultaneamente cuidadores e população-alvo, e a promoção de saúde em contexto laboral pode reduzir riscos, melhorar o bem-estar e reforçar a coerência institucional “cuidar de quem cuida”. As recomendações da OMS reforçam que atingir 150–300 min/semana de atividade física moderada (ou equivalente) e reduzir sedentarismo traz benefícios relevantes na prevenção de DCV, sendo as intervenções que diminuem barreiras e aumentam oportunidades de movimento particularmente úteis 1,6.
Entre as limitações do estudo destacam-se a ausência de grupo de controlo e a ausência de indicadores clínicos objetivos.
A integração de uma abordagem comunitária participativa com os princípios da Teoria da Autodeterminação e da Teoria dos Estágios de Mudança revelou-se determinante para potenciar a motivação intrínseca, aumentar o envolvimento e favorecer a adoção sustentada de comportamentos saudáveis. O desenho da intervenção permitiu adequar as estratégias de apoio aos diferentes estágios do processo de mudança, desde a consciencialização até à manutenção a longo prazo, maximizando o impacto da iniciativa. O sucesso da intervenção assenta, assim, na combinação de estratégias motivacionais, definição de metas realistas, apoio entre pares e comunicação contínua, reforçando a relevância de intervenções estruturadas e teoricamente sustentadas na promoção da saúde em contexto laboral.
Com base nos resultados obtidos, torna-se pertinente considerar futuras iniciativas, entre as quais se destacam: