ARTIGO DE OPINIÃO

 

MEDIR É CUIDAR: O PODER TRANSFORMADOR DOS INDICADORES NA ENFERMAGEM DE REABILITAÇÃO

Falar de qualidade em saúde sem falar de indicadores é ignorar o papel transformador…

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VALORIZAÇÃO DA ENFERMAGEM COMUNITÁRIA: O CONTRIBUTO ESTRATÉGICO NO CONTEXTO HOSPITALAR

Eis que começa um novo ano, marcado pela mística da mudança de ciclo, que assume…

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A ENFERMAGEM COMO PILAR DA SEGURANÇA NA IMPLEMENTAÇÃO DA CIRURGIA ROBÓTICA

Nas últimas décadas, a cirurgia robótica tem vindo a afirmar-se como uma forte…

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MEDIR É CUIDAR: O PODER TRANSFORMADOR DOS INDICADORES NA ENFERMAGEM DE REABILITAÇÃO

 

Helena Pestana

Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação

Enfermeira Gestora na ULS São José

Falar de qualidade em saúde sem falar de indicadores é ignorar o papel transformador da capacidade de medir para melhorar.

Na Enfermagem de Reabilitação, essa verdade adquire um significado profundo, porque aqui, a mensurabilidade do cuidado é incontornável. É neste espaço entre o gesto clínico e o resultado humano que os indicadores revelam o seu valor: traduzem, em evidência, o impacto da reabilitação na vida das pessoas.

Os indicadores de saúde são muito mais do que métricas ou relatórios técnicos. São instrumentos de cidadania e de transparência, que tornam visível o que se faz, como se faz e, sobretudo, o resultado do que se faz.

Para o cidadão significam cuidados mais seguros, mais eficazes e mais humanos. Para os enfermeiros de reabilitação significam reconhecimento, legitimidade e voz, a possibilidade de demonstrar, com dados e resultados, o valor do seu trabalho na transformação das vidas que cuidam.

A Ordem dos Enfermeiros deu um passo decisivo em 2018 com a criação dos Bilhetes de Identidade dos Indicadores de Enfermagem de Reabilitação. Esse documento marcou uma viragem na prática profissional, ao uniformizar critérios e permitir medir ganhos sensíveis aos cuidados de reabilitação, deu corpo e método àquilo que já se fazia com excelência.

O enfermeiro especialista em enfermagem de reabilitação atua em cenários de grande exigência: doentes com múltiplas vulnerabilidades, com percursos de reabilitação longos e multidisciplinares. Mas os tempos mudaram. A evolução demográfica, o avanço tecnológico e as novas exigências sociais tornaram claro que o painel de indicadores precisa de ser atualizado e inovado, refletindo a complexidade atual dos contextos de reabilitação.

O impacto da sua ação mede-se na readaptação funcional, na prevenção de complicações, na autonomia conquistada e na participação ativa do cidadão na sua recuperação.

Estudos recentes comprovam que avaliar para melhorar faz a diferença: na reabilitação respiratória e na mobilização precoce de doentes ventilados, a mensuração dos indicadores traduziu-se em ganhos clínicos e funcionais significativos.

Quando os indicadores guiam a ação, deixam de existir práticas isoladas, passam a existir padrões mensuráveis de qualidade e excelência. Este tipo de monitorização permite uniformizar a avaliação da prática, reforçando a consistência científica das decisões clínicas e de gestão.

O ganho para o cidadão é direto e mensurável: menos complicações, mais autonomia, melhor qualidade de vida. Nas doenças respiratórias a utilização de indicadores sensíveis aos cuidados de reabilitação melhora a independência funcional e reduz a morbilidade. Da mesma forma, a monitorização de indicadores na mobilização precoce de doentes ventilados reduz o tempo de internamento e acelera a recuperação funcional.

Mas os ganhos não são apenas clínicos, são também estratégicos para a profissão. O uso sistemático dos indicadores transforma a perceção social do enfermeiro de reabilitação, projetando-o como profissional de decisão clínica baseada em resultados e não apenas como executor de cuidados.

Medir é afirmar identidade. É garantir que o valor da Enfermagem se traduz em evidência, em resultados e em políticas de saúde informadas pela prática.

Em síntese, os indicadores não são meras ferramentas de gestão, são instrumentos de justiça, equidade e qualidade em saúde. Permitem demonstrar que a Enfermagem de Reabilitação melhora vidas, poupa recursos e sustenta um sistema de saúde mais eficiente e humano. Medir é, afinal, cuidar com rigor, com ciência e com responsabilidade.

Não obstante, importa assinalar um horizonte emergente: o da Inteligência Artificial (IA). As tecnologias digitais têm o potencial de revolucionar a forma como recolhemos, analisamos e interpretamos dados. Com a IA, é possível monitorizar em tempo real indicadores de recuperação, funcionalidade ou risco de complicações, antecipando necessidades e personalizando o cuidado. A IA não substitui o julgamento clínico do enfermeiro, amplifica-o. Torna-o mais preciso, mais preditivo e mais centrado na pessoa de quem cuida. É a aliança entre o raciocínio clínico e a inteligência tecnológica que permitirá à Enfermagem de Reabilitação dar o próximo salto de qualidade e de visibilidade.

A atualização dos indicadores de Enfermagem de Reabilitação é, portanto, muito mais do que uma exigência técnica, é uma urgência estratégica e ética. É tempo de assumir, mais uma vez, a dianteira na inovação, demonstrando que medir é cuidar, mas medir com inteligência é transformar.

 

 


VALORIZAÇÃO DA ENFERMAGEM COMUNITÁRIA: O CONTRIBUTO ESTRATÉGICO NO CONTEXTO HOSPITALAR

 

Elisabete Mesquita

Enfermeira Especialista em Enfermagem Comunitária

Equipa Coordenadora Local de Santa Maria

Eis que começa um novo ano, marcado pela mística da mudança de ciclo, que assume particular significado num contexto em que a revisão do modelo de especialidades evidencia uma Enfermagem dinâmica, em evolução.

O tempo de agir é agora. De nos posicionarmos com clareza, afirmando o contributo estratégico da Enfermagem Comunitária. Quando limitada a um único contexto de cuidados compromete a sua missão e limita o seu impacto. O Hospital é comunidade e parte integrante da comunidade.

Foi com esse sentido de propósito que, no dia 5 de dezembro, a convite do Colégio da Especialidade de Enfermagem Comunitária, participei na IV Convenção Internacional da Ordem dos Enfermeiros e abordei o tema “No Hospital: O papel estratégico do Enfermeiro Especialista de Enfermagem Comunitária e Saúde Pública”.

O hospital é um espaço de complexidade, onde readmissões hospitalares resultam, em grande medida, de três principais desafios: (1) lacunas na transição entre os diferentes níveis de cuidados, (2) insuficiente articulação com a comunidade e acompanhamento/monitorização no pós-alta hospitalar (3) .

Enquanto coordenadora do Núcleo de Enfermagem Comunitária da ULSSM, afirmo com convicção que as competências do EEEC posicionam-no como elemento-chave na resposta a estes desafios, assumindo simultaneamente um contributo estruturante na integração, prevenção, continuidade e articulação dos cuidados, sustentado numa intervenção macro e transversal.

Na prática clínica, traduzem-se em ações estruturantes, em que destaco como agente promotor e facilitador:(a) na promoção de transições seguras entre níveis de cuidados, com foco no planeamento da alta hospitalar em segurança, (b) na gestão de casos complexos e como (c) nurse navigator, integrando determinantes em saúde, (d) na literacia e educação para a saúde à pessoa cuidada/família.

Paralelamente, tem o potencial de se evidenciar como agente promotor na (e) articulação com a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e parceiros comunitários. Acresce ainda a (f) intervenção em contextos de risco epidemiológico e de saúde pública.

Porém, para que a integração do EEEC no contexto hospitalar seja efetiva, é fundamental serem adotadas medidas que reconheçam o seu contributo, nomeadamente:

  1. Inclusão da especialidade no Regulamento n.º 743/2019 no âmbito das dotações seguras no âmbito hospitalar;
  2. Reconhecimento do hospital como contexto formativo na academia;
  3. Definição de indicadores adaptados à realidade hospitalar;
  4. Concursos no Hospital com vagas para alocação de EEEC.

Não obstante, torna-se imperativo gerar evidência robusta sobre o impacto da integração formal do EEEC no hospital. Onde Hoje há ausência, Amanhã é referência.

Integrar, articular, prevenir são verbos que exigem muito mais do que intenção. O futuro da (nossa) saúde não se constrói em silos, mas em redes colaborativas e Enfermagem Comunitária é, inequivocamente, um pilar estruturante dessa construção.

 

 


A ENFERMAGEM COMO PILAR DA SEGURANÇA NA IMPLEMENTAÇÃO DA CIRURGIA ROBÓTICA

 

Andreia Casteleiro Lameira

Enfermeira Especialista em Enfermagem à Pessoa em Situação Perioperatória

Enfermeira Coordenadora do Bloco Operatório Central II da ULSSM

Nas últimas décadas, a cirurgia robótica tem vindo a afirmar-se como uma forte inovação tecnológica na área da saúde. A sua implementação progressiva nos sistemas de saúde, incluindo em Portugal, constitui um novo paradigma assistencial, com impacto direto na organização dos serviços, na segurança do doente e no papel dos profissionais de saúde.

Esta abordagem cirúrgica, de carácter minimamente invasivo, permite uma visualização tridimensional de alta definição e uma maior precisão cirúrgica associada a uma estabilidade dos movimentos. Deve ser encarada como uma adição de valor aos cuidados prestados, que traduz ganhos significativos em saúde, nomeadamente através da redução dos tempos de internamento, de uma recuperação pós-operatória mais rápida e com menor incidência de complicações, bem como de um retorno precoce às atividades de vida diária com melhoria global da qualidade de vida dos doentes.

A sua implementação representa, contudo, um processo rigoroso, que implica um trabalho estruturado e multifacetado, no qual a enfermagem tem um papel ativo e fundamental. Este processo passa pela identificação de necessidades, pela aquisição de materiais e equipamentos específicos, pela avaliação de espaços físicos, bem como pela criação e adaptação de fluxos e circuitos, elaboração de protocolos, normas de atuação e checklists.

Carece do envolvimento articulado de diferentes departamentos de uma Unidade Local de Saúde, nomeadamente os serviços de logística e stocks, de gestão de compras, de instalação e equipamentos, de esterilização, de internamento – responsável pelo acolhimento dos doentes, bloco operatório e a unidade de cuidados anestésicos pós-operatórios.

O investimento inicial elevado, bem como os custos associados à manutenção do equipamento, constituem desafios significativos para a sustentabilidade do modelo. Acresce ainda o aumento do tempo cirúrgico nas fases iniciais, decorrente da curva de aprendizagem prolongada das equipas. A formação dirigida e específica dos profissionais de saúde adquire uma sólida relevância e é fundamental para a segurança do ato cirúrgico e para ultrapassar as fragilidades identificadas.

A cirurgia robótica representa, assim, uma oportunidade de crescimento e valorização da enfermagem, alicerçada em aspetos que garantem a segurança perioperatória como uma comunicação eficaz entre os diferentes elementos da equipa em sala operatória, o rigor do posicionamento do doente e uma articulação estreita com a equipa de anestesiologia, pela limitação de acesso ao doente.

Ao integrar conhecimento científico, competências técnicas e cuidados humanizados, os enfermeiros afirmam-se como elementos chave na transformação digital e na promoção de cuidados de saúde mais seguros, eficientes e centrados no doente.