
“A saúde mental positiva constitui um potente fator protetor face à doença mental.”
Sónia Teixeira é enfermeira Especialista e Mestre em Saúde Mental e Psiquiatria, além de ter conquistado um PhD com distinção pela Universidade Rovira i Virgili, em Espanha. Investigadora no RISE Health – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde e membro da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (ASPESM). Os seus principais temas de pesquisa incluem o sentimento de culpa nos cuidadores de pessoas com demência e saúde mental positiva. Neste artigo apresenta o Programa de Saúde Mental Positiva para Adultos – Mentis Plus+, cujo objetivo é operacionalizar a promoção da saúde mental positiva junto da população adulta portuguesa.
Promover a Saúde Mental Positiva em Adultos: Um Guia para Enfermeiros Especialistas
Car@s colegas,
É com entusiasmo que partilhamos convosco a possibilidade de consultarem o Manual de Apoio à Implementação do Programa de Saúde Mental Positiva para Adultos (Mentis Plus+) — uma ferramenta prática e fundamentada, especialmente concebida para enfermeiros especialistas em saúde mental e psiquiatria. O manual está disponível através do seguinte link: https://mentisplus.gumroad.com/l/saudementalpositiva.
Este manual foi desenvolvido como um guia estruturado, com o objetivo de operacionalizar a promoção da saúde mental positiva junto da população adulta portuguesa.
Entendemos a saúde mental positiva como algo que vai além da mera ausência de doença, trata-se de uma dimensão dedicada ao fortalecimento e desenvolvimento do funcionamento ótimo do ser humano, ainda pouco explorada no nosso país.
Propomos, assim, uma abordagem prática e uniformizada, baseada em sessões dinamizadas por profissionais de saúde, nomeadamente, enfermeiros especialistas em saúde mental e psiquiatria, com procedimentos estandardizados e, ao mesmo tempo, adaptáveis às necessidades de cada comunidade ou utente.
Recordamos que, segundo a Organização Mundial da Saúde, os enfermeiros constituem a maior força de trabalho na área da saúde mental em Portugal, representando 12,46% dos profissionais, muito à frente dos psiquiatras (4,49%). Esta realidade sublinha a importância de capacitar os enfermeiros com ferramentas eficazes para a promoção da saúde mental positiva.
O Programa de Saúde Mental Positiva para Adultos – Mentis Plus+ foi desenvolvido com base numa revisão sistemática da literatura e em reuniões com peritos, tendo como fundamento o Modelo Multifatorial de Saúde Mental Positiva. Este modelo explora seis fatores essenciais: Satisfação Pessoal, Atitude Pró-Social, Autocontrolo, Autonomia, Resolução de Problemas e Autoatualização, e Habilidades de Relação Interpessoal.
Contamos com o vosso envolvimento na implementação deste programa e na construção de uma prática de enfermagem cada vez mais centrada na promoção da saúde e do bem-estar psicológico.
A saúde mental positiva constitui um potente fator protetor face à doença mental. Exercitem a vossa saúde mental positiva — e a dos outros — para se manterem sempre num nível ótimo.
Temos a ferramenta… basta colocar mãos à obra!
A equipa Mentis Plus +
Sónia Teixeira

Carlos Sampaio, enfermeiro generalista há 31 anos. Defensor da valorização da prática clínica e da experiência como fonte legítima de perícia em enfermagem. Neste artigo reflete sobre a evolução do enfermeiro de cabeceira até ao reconhecimento do perito construído pela prática diária.
Enfermeiro de Cabeceira: A Essência que Permanece
A história da enfermagem moderna nasce com Florence Nightingale, nos meados do século XIX. Surgia então o enfermeiro de cabeceira, aquele que, ao lado do doente, garantia cuidados contínuos, observava sinais silenciosos e agia com precisão e compaixão. Desde esse tempo, “estar à cabeceira” passou a ser sinónimo de presença ativa, de compromisso inabalável com a vida.
Hoje, o enfermeiro generalista é o legítimo herdeiro desse legado. Com formação científica sólida e prática consolidada, assegura cuidados globais, personalizados e seguros, 24 horas por dia. Cuidar à cabeceira é, mais do que uma tradição, uma responsabilidade assumida com rigor e dedicação.
A todos os enfermeiros generalistas: cada cuidado prestado, cada decisão tomada no terreno, cada olhar atento que antecipa e previne é a expressão viva da vossa perícia. O verdadeiro perito constrói-se na prática diária, na experiência junto do doente, onde o saber técnico se funde com a observação, a decisão crítica e a presença contínua.
A perícia do enfermeiro generalista não se adquire apenas nos livros: nasce no contacto real, na vigilância permanente, na execução pensada de cada gesto técnico. Somos peritos porque somos presença ativa, capacidade crítica e humanidade.
Valorizar o enfermeiro de cabeceira é valorizar a enfermagem que transforma, a ciência que não abdica da arte de cuidar. É reconhecer que, desde Nightingale até aos dias de hoje, é à cabeceira que se escreve a história real da saúde e da vida.
Carlos Sampaio

Susana Vaz Pereira é enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstétrica com mais de uma década de prática na área da saúde da mulher na Consulta Externa de Ginecologia da ULS Santa Maria.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, a literacia em saúde implica o conhecimento, a motivação e as competências acumuladas das pessoas para aceder, compreender, avaliar e aplicar informação, de forma a tomarem decisões informadas.
O Plano Nacional de Literacia em Saúde e Ciências do Comportamento 2023–2030 reforça a necessidade de aumentar a literacia em saúde, tendo em conta que apenas 22% da população portuguesa apresenta níveis considerados adequados.
No contexto da Consulta de Enfermagem em Ginecologia, enquanto Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica (EESMO), destaco o cancro da mama como um dos principais problemas de saúde das mulheres, sendo atualmente o mais frequente em Portugal e a principal causa de morte por doença oncológica, segundo dados epidemiológicos recentes. Também o cancro do colo do útero merece especial atenção, uma vez que estudos indicam que apenas 10% das mulheres jovens demonstraram um bom nível de conhecimento sobre esta doença.
Sabe-se que os programas de rastreio organizado assumem um papel crucial na deteção precoce destas patologias. Contudo, o seu sucesso está intrinsecamente ligado ao nível de literacia em saúde da população-alvo.
Apesar dos esforços desenvolvidos através dos programas de rastreio, as fragilidades na literacia em saúde continuam a refletir-se no quotidiano da prestação dos cuidados. À Consulta de Enfermagem de Ginecologia chegam diariamente mulheres que enfrentam desafios expressivos na compreensão dos seus processos de saúde/doença, o que se traduz, não raras vezes, em diagnósticos tardios e em dificuldades no seguimento dos tratamentos. Assim, a consulta representa uma oportunidade única para promover a literacia em saúde e o empoderamento feminino, na medida em que, tendo por base uma abordagem centrada na mulher, procuramos transformar esse espaço para potenciar momentos de partilha, escuta ativa e construção de conhecimento, incentivando a tomada de decisões informadas.
Para apoiar este esforço na promoção da literacia em saúde é fundamental disponibilizar recursos educativos acessíveis e adaptados às necessidades de cada mulher e família. Para o efeito, foram criados na consulta três instrumentos especificamente direcionados para as áreas do cancro da mama e do cancro do colo do útero:
– O Guia de Bem-Estar para Mulheres a Vivenciar o Cancro da Mama;
– O Folheto Autoexame da Mama;
– O Folheto vírus Papiloma humano (HPV) – Conhecer para Prevenir.
A promoção da literacia em saúde da mulher é um pilar fundamental para o fortalecimento da sua autonomia, refletindo-se diretamente na melhoria da gestão dos seus processos de saúde/doença. O investimento contínuo em estratégias de literacia em saúde representa um capital simbólico de grande relevância, reforçando a missão do EESMO de responder com competência e compromisso às necessidades das utentes, contribuindo assim para uma sociedade mais informada, consciente e saudável.
Para mais informações sobre os Programas Nacionais de Rastreio do Cancro da Mama e do Cancro do Colo do Útero, consultar a Direção-Geral da Saúde (DGS). Disponível em: https://www.dgs.pt
