
Abordar o potencial reprodutivo, em contexto de doença oncológica, é falar de futuro e de esperança…

Refletir sobre a visita pré-operatória no Hospital Pulido Valente é, para mim, enquanto enfermeira…

Nas últimas décadas, a cirurgia robótica tem vindo a afirmar-se como uma forte…

Ana Catarina Canais dos Santos
Enfermeira
Unidade de Medicina da Reprodução
Abordar o potencial reprodutivo, em contexto de doença oncológica, é falar de futuro e de esperança, mesmo quando o presente é dominado pela urgência terapêutica e/ou cirúrgica. Em Portugal, 31.5% dos casos de preservação do potencial reprodutivo decorrem de doença oncológica, segundo o Relatório de Atividade do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida. Esta realidade torna-se ainda mais relevante quando analisamos os dados epidemiológicos elaborados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, constantes no relatório “Perfis do Cancro por País 2025: Portugal”. Este relatório indica que o grupo etário entre os 15 e os 49 anos apresenta a segunda maior taxa de incidência de cancro da União Europeia e países associados. Tratando-se de uma população em idade fértil, as potenciais consequências dos tratamentos oncológicos na função reprodutiva futura assumem particular significado.
Os avanços nas terapêuticas oncológicas têm conduzido a um aumento significativo das taxas de sobrevivência, deslocando o foco para as consequências a médio e longo prazo dos tratamentos. A quimioterapia, a radioterapia e determinadas cirurgias podem comprometer a função reprodutiva de forma permanente ou transitória. Para mulheres e homens em idade fértil, essa possibilidade pode traduzir-se numa perda que ultrapassa a dimensão biológica, afetando eventuais projetos de vida, relações afetivas e expectativas familiares presentes e futuras.
Neste contexto, técnicas como a criopreservação de gâmetas (espermatozóides e ovócitos), permitem integrar a dimensão reprodutiva na tomada de decisão terapêutica, previamente a intervenções potencialmente irreversíveis. O equilíbrio entre a urgência do tratamento oncológico e a preservação do futuro reprodutivo exige articulação célere, planeamento e uma abordagem verdadeiramente multidisciplinar. É neste enquadramento que a intervenção de enfermagem assume particular relevância. Contribuir para que a preservação do potencial reprodutivo seja ponderada o mais precocemente possível não constitui apenas uma boa prática clínica, é uma responsabilidade ética e profissional. Garantir que esta possibilidade é apresentada à/ao utente, de forma esclarecida, capacitando-o para uma decisão informada e integrada no cuidado centrado na pessoa.
Importa ainda sublinhar que o acesso à Procriação Medicamente Assistida é um direito consagrado na legislação portuguesa, nomeadamente na Lei n.º 16/2019. Na Unidade Local de Saúde de Santa Maria, estes procedimentos são assegurados pela Unidade de Medicina da Reprodução, possibilitando uma referenciação atempada, integrada no plano de cuidados e em articulação com a especialidade oncológica.
Embora a preservação da vida seja o objetivo primordial em oncologia, quando existe desejo expresso, preservar a possibilidade de um futuro reprodutivo constitui uma extensão legítima e humanizada do cuidado.
A equipa de enfermagem ocupa uma posição privilegiada na abordagem destas questões, pela relação de empatia, respeito e proximidade na prestação de cuidados. O enfermeiro, como elemento que integra a equipa multidisciplinar acompanha a/o utente ao longo de todo o processo e desempenha um papel primordial na continuidade dos cuidados, desde o seu diagnóstico, às tomadas de decisão e aos tratamentos realizados, atuando como elemento facilitador da referenciação atempada para consultas de medicina da reprodução. É fundamental que a equipa de enfermagem esteja atenta ao impacto emocional que esta decisão pode representar: uma sensação de controlo e esperança na gestão do processo de saúde-doença, se optar pela criopreservação; simbolizar uma carga adicional, num momento já marcado por ansiedade e medo; e/ou um stress acrescido por ter de ser tomada num curto período, referente à janela terapêutica disponível até aos tratamentos oncológicos.
Acompanhar a pessoa de forma contínua no seu processo, gerindo expetativas realistas, desmistificando e apoiando na tomada de decisão, significa olhar para o futuro enquanto se cuida no presente. É, neste contexto, que a enfermagem se afirma como elo estruturante da equipa multidisciplinar, ao informar, acompanhar e apoiar a/o utente para que possa decidir de forma esclarecida, com autonomia e confiança, integrando a dimensão reprodutiva no seu plano de cuidados.

Fernanda Martins Peredo
Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica – Área de Enfermagem à Pessoa em Situação Perioperatória.
Bloco Operatório Central II – Hospital Pulido Valente
Refletir sobre a visita pré-operatória no Hospital Pulido Valente é, para mim, enquanto enfermeira do Bloco Operatório Central II, revisitar um legado que começou muito antes de integrar esta equipa. Em junho de 1992, iniciou-se uma prática que revelou visão, sensibilidade clínica e um profundo compromisso com a humanização dos cuidados.
Há mais de três décadas, reconhecer que o processo cirúrgico não começa no bloco operatório, mas no primeiro contacto com a pessoa em situação perioperatória e a sua família, foi um passo pioneiro. A implementação da visita pré-operatória representou uma mudança de paradigma: deixou-se de olhar para o ato cirúrgico como um procedimento técnico isolado e passou-se a encará-lo como parte de um processo vivido por uma pessoa, com medos, expectativas e necessidades específicas.
A visita pré-operatória é, acima de tudo, um espaço de encontro onde se inicia a construção da relação de ajuda. É o momento em que o enfermeiro do bloco operatório se aproxima da pessoa e da sua família, estabelece comunicação terapêutica, identifica necessidades físicas e emocionais e promove um ambiente seguro para a expressão de dúvidas e receios. Esta intervenção contribui para a redução da ansiedade, melhora a preparação para o procedimento e reforça a confiança na equipa.
Num hospital com tradição no tratamento de patologias do foro respiratório e atualmente integrado na ULS Santa Maria, com forte componente universitária e assistencial, esta prática assume especial relevância, particularmente na cirurgia torácica. A complexidade crescente dos cuidados torna indispensável um acompanhamento mais próximo, individualizado e humanizado.
Celebrar o início desta prática, em junho de 1992, é reconhecer o papel dos enfermeiros que, com visão e dedicação, anteciparam o que hoje sabemos ser essencial: a humanização não é um complemento ao ato cirúrgico, é parte integrante da qualidade assistencial.
Num tempo em que tanto se fala de inovação, importa lembrar que algumas das transformações mais significativas nasceram de práticas de enfermagem essenciais e profundamente estruturantes: presença terapêutica, escuta ativa, informação clara e acompanhamento contínuo.
A visita pré-operatória no polo Hospital Pulido Valente é mais do que uma intervenção autónoma — é um compromisso renovado diariamente com a pessoa no centro do cuidar. Um legado que continua a inspirar a prática presente, projetando o futuro da enfermagem na ULS Santa Maria.

Gisela Queirós
Enfermeira Especialista Saúde Mental e Psiquiátrica
Núcleo Enfermagem SMP
Nos últimos anos, a coerção em saúde mental — incluindo internamentos involuntários, contenções físicas ou químicas e outras formas de limitação da liberdade — tem suscitado um crescente debate não só em Portugal como também a nível internacional. Historicamente, estas medidas foram justificadas como mecanismos de proteção do utente ou da sociedade. Contudo, é cada vez mais reconhecido que a coerção pode intensificar o sofrimento, comprometer a relação terapêutica e restringir a autonomia do indivíduo.
A redução da coerção deve ser encarada não apenas como uma exigência ética, mas também como uma estratégia para melhorar a qualidade dos cuidados prestados. Intervenções centradas na pessoa, com abordagem baseada em direitos humanos, escuta ativa e envolvimento do utente nas decisões sobre o seu cuidado, promovem melhores resultados clínicos e fortalecem a relação de confiança entre profissionais e utentes.
A implementação de alternativas à coerção, como planos de crise individualizados, estratégias de desescalada verbal e comportamental e utilização de ferramentas de comunicação segura — incluindo sinais e palavras de segurança previamente acordadas — exige investimento em formação e capacitação das equipas de saúde mental. Profissionais preparados são capazes de identificar sinais de escalada, negociar soluções terapêuticas e apoiar o autocontrolo do utente, reduzindo significativamente a necessidade de medidas coercivas.
A diminuição da coerção não implica ausência de segurança. Pelo contrário, requer avaliação contínua, acompanhamento próximo e a criação de ambientes terapêuticos estruturados, onde a dignidade e os direitos do utente são salvaguardados. Este modelo promove recuperação, inclusão social e autonomia, pilares essenciais da saúde mental contemporânea.
Em Portugal, existem avanços significativos, incluindo o reforço de equipas comunitárias e a implementação de cuidados centrados na pessoa. No entanto, persistem desafios, nomeadamente a necessidade de transformação cultural, atualização de protocolos e formação profissional. Estes elementos são essenciais para que os serviços de saúde mental deixem de ser percebidos como espaços de controlo e coercividade, tornando-se ambientes de cuidado, empatia e promoção da autonomia.
A formação contínua é um pilar estratégico neste processo. Equipas treinadas em técnicas de descalada, gestão de conflitos e intervenções não coercivas conseguem intervir de forma mais segura, assertiva e ética. A reflexão constante sobre casos clínicos, o debriefing, a partilha de experiências e a supervisão de situações complexas consolidam práticas baseadas em evidência, assegurando cuidados centrados no utente.
Reduzir a coerção constitui, portanto, mais do que uma mudança de prática clínica: é um compromisso com os direitos humanos, a dignidade do utente e a humanização dos serviços de saúde mental. Cada medida que substitui o controlo pela confiança representa um avanço significativo na construção de serviços mais humanos, inclusivos e eficazes, capazes de promover recuperação, autonomia e qualidade de vida.