CUIDADOS DE ENFERMAGEM NA PUNÇÃO LOMBAR EM PESSOAS COM DOENÇA HEMATOLÓGICA NO CONTEXTO DE HOSPITAL DE DIA

Catarina Ferreira, Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica, Centro Ambulatório – Hospitais de Dia

 

A punção lombar (PL) é um procedimento diagnóstico e terapêutico amplamente utilizado na prática clínica, com particular relevância no contexto da hematologia, devido à sua frequência em protocolos que incluem profilaxia ou tratamento do envolvimento do Sistema Nervoso Central (SNC). Este procedimento permite a colheita de líquido cefalorraquidiano (LCR) para análise citológica, bioquímica e microbiológica, bem como a administração intratecal de quimioterapia. As amostras de LCR fornecem informações essenciais para o diagnóstico, avaliação do risco e definição do plano terapêutico da pessoa (Sievänen et al., 2023).

Os cuidados de enfermagem são determinantes para garantir a segurança da pessoa, a eficácia do procedimento e a prevenção de complicações. Os cuidados pré-procedimento têm como objetivo preparar a pessoa, reduzir riscos e assegurar condições adequadas à realização da técnica. Esta fase inicia-se com a avaliação clínica, que inclui a verificação de parâmetros laboratoriais fundamentais, como a contagem de plaquetas e os valores de coagulação, uma vez que muitas pessoas com doença hemato-oncológica apresentam trombocitopenia ou alterações da hemostase. Paralelamente, é essencial avaliar sinais neurológicos, o estado de consciência e a presença de sintomas como cefaleia, vómitos ou alterações visuais, que possam sugerir hipertensão intracraniana, situação que contraindica o procedimento. Esta precaução é particularmente relevante em casos de suspeita de infiltração do SNC por doença hematológica (Kozak et al., 2023).

A preparação emocional e informativa da pessoa é igualmente fundamental. Deve ser garantido o consentimento informado, explicando de forma clara e adequada as etapas do procedimento e as possíveis sensações associadas, como pressão ou desconforto na região lombar (Tumani et al., 2020). Este processo contribui para a redução da ansiedade, promove a colaboração da pessoa e fortalece a relação terapêutica.

Durante o procedimento, os cuidados de enfermagem centram-se na assistência técnica e na garantia de condições de assepsia e segurança. O enfermeiro deve preparar todo o material necessário, incluindo: campos estéreis; antissépticos recomendados, como a Iodopovidona 1%, solução alcoólica (Comissão de Controlo de Infeção CHLN, 2017); agulhas apropriadas; tubos de colheita e, quando aplicável, a medicação intratecal prescrita (Kim, 2022; Tumani et al., 2020). A correta identificação da pessoa e da medicação é crítica, especialmente na administração de quimioterapia intratecal, devido ao elevado risco associado a erros de medicação.

Material para punção lombar e colheita de LCR

O posicionamento da pessoa constitui outro aspeto fundamental. As posições mais utilizadas são o decúbito lateral com flexão dos membros inferiores ou a posição sentada com inclinação anterior do tronco (Kim, 2022). A punção é geralmente realizada nos espaços intervertebrais L3-L4 ou L4-L5, de forma a minimizar o risco de lesão da medula espinhal (Kim, 2022; Tumani et al., 2020). Pode ser aplicada anestesia tópica no local de punção, embora esta medida seja opcional (Kim, 2022).

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A punção lombar é considerada um procedimento seguro, embora não isento de complicações (Kim, 2022; Tumani et al., 2020). Assim, os cuidados de enfermagem pós-procedimento baseiam-se sobretudo na vigilância e prevenção de complicações. A pessoa deve permanecer em repouso, geralmente em decúbito dorsal, durante um período que pode variar conforme o protocolo institucional, sendo frequentemente recomendado cerca de uma hora. Este repouso visa reduzir o risco de cefaleia ortostática pós-punção, uma das complicações mais comuns (Kim, 2022; Tumani et al., 2020).

A cefaleia pós-punção lombar é caracterizada por dor que agrava na posição ortostática e alivia em decúbito. O enfermeiro deve orientar a pessoa quanto à importância da hidratação, do repouso e, se necessário, da administração de analgésicos conforme prescrição. A dor no local de punção e a ocorrência de pequena hemorragia local são outras complicações frequentes (Kim, 2022; Tumani et al., 2020). Em pessoas com doença hemato-oncológica, a vigilância deve ser mais rigorosa devido ao risco aumentado de infeções e complicações hemorrágicas.

Outro aspeto relevante é a educação para a saúde no momento da alta. O enfermeiro deve instruir a pessoa e a família sobre sinais de alerta que justifiquem contacto com a equipa de saúde, como febre, rigidez da nuca, cefaleia intensa persistente, alterações neurológicas ou sinais de infeção no local da punção. Esta capacitação contribui para a deteção precoce de complicações e para a continuidade dos cuidados.

Além dos cuidados técnicos, o enfermeiro deve adotar uma abordagem centrada na pessoa, reconhecendo as suas necessidades individuais, medos e expectativas. A empatia, a comunicação eficaz e o respeito pela dignidade da pessoa são componentes fundamentais da prática de enfermagem, particularmente em contexto ambulatório. O apoio emocional pode ser especialmente relevante, tendo em conta o impacto da doença e dos tratamentos na qualidade de vida

Por fim, deve ser assegurada a documentação adequada de todo o processo. Este registo é essencial para garantir a continuidade dos cuidados, bem como para fins de auditoria e melhoria da qualidade.

Em suma, os cuidados de enfermagem na punção lombar em pessoas com doença hemato-oncológica são complexos e multidimensionais, envolvendo preparação, assistência ao procedimento, vigilância pós-procedimento e educação para a saúde. A atuação competente e humanizada do enfermeiro contribui significativamente para a segurança da pessoa, a prevenção de complicações e a promoção do seu bem-estar ao longo do processo terapêutico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Comissão de Controlo de Infeção. (2014). Utilização de antisséticos. Centro Hospitalar Lisboa Norte.

Kim, K. T. (2022). Lumbar puncture: Considerations, procedure, and complications. Encephalitis, 2(4). https://doi.org/10.47936/encephalitis.2022.00045

Kozak, M., Knapik, P., Brzezińska, A., & Misiołek, H. (2023). Lumbar puncture: Indications, contraindications, procedure, and complications. Cureus, 15(7), e42019. https://doi.org/10.7759/cureus.42019

Sievänen, H., Kari, J., Aarnivala, H., Becker, S., Huurre, A., Långström, S., & Palmu, S. (2023). Success and complications in lumbar punctures of pediatric patients with leukemia: A study protocol for a randomized clinical crossover trial of a bioimpedance needle system versus conventional procedure. Trials, 24(1), Article 464. https://doi.org/10.1186/s13063-023-07498-4

Tumani, H., Petereit, H. F., Gerritzen, A., Gross, C. C., Huss, A., Isenmann, S., Jesse, S., Khalil, M., Lewczuk, P., Lewerenz, J., Leypoldt, F., Melzer, N., Meuth, S. G., Otto, M., Ruprecht, K., Sindern, E., Spreer, A., Stangel, M., Strik, H., … Zimmermann, T. (2020). S1 guidelines “lumbar puncture and cerebrospinal fluid analysis” (abridged and translated version). Neurological Research and Practice, 2, 8. https://doi.org/10.1186/s42466-020-0051-z