ARTIGO DE OPINIÃO

 

ENFERMAGEM COMUNITÁRIA NA URGÊNCIA: FORA DO LUGAR OU NO LUGAR CERTO?

No Serviço de Urgência, a pessoa raramente chega apenas com o sintoma que motivou a admissão…

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ONDE O CUIDADO ACONTECE

A adolescência não é um lugar estável. É um território em deslocamento. Um corpo que cresce mais depressa do que o pensamento…

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O PAPEL DO ESPECIALISTA EM ENFERMAGEM DE SAÚDE MENTAL E PSIQUIÁTRICA NO CUIDADO AO DOENTE HEMATO-ONCOLÓGICO

O diagnóstico de doença Hemato-Oncológica e tratamentos subsequentes encerra, ainda, uma conotação negativa e fatal…

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ENFERMAGEM COMUNITÁRIA NA URGÊNCIA: FORA DO LUGAR OU NO LUGAR CERTO?

 

Sara Duarte Correia

Enfermeira Especialista em Enfermagem Comunitária

Serviço de Urgência Central – ULSSM

No Serviço de Urgência, a pessoa raramente chega apenas com o sintoma que motivou a admissão. Quando a porta se abre, não vemos apenas uma dor, uma queda, uma dispneia ou uma complicação clínica. Vemos alguém com uma história, uma família, ou, por vezes, com a ausência dela… uma rede de suporte, medos, limitações, recursos e vulnerabilidades que nem sempre são imediatamente percetíveis. Muitas vezes, aquilo que se apresenta como um episódio agudo é apenas a expressão mais visível de uma realidade construída muito antes da entrada na urgência: no domicílio, na comunidade, nas redes de apoio, nos determinantes sociais e na capacidade de cada pessoa gerir a sua saúde.

Num contexto marcado pela imprevisibilidade, pela alta pressão assistencial e pela necessidade de rápida tomada de decisão, é natural que o olhar se concentre no imediato: avaliar, intervir, estabilizar, tratar, encaminhar. Contudo, há vulnerabilidades que não se revelam nos parâmetros vitais, no motivo de triagem ou no diagnóstico clínico. Revelam-se naquele que regressa a uma casa vazia, no cuidador exausto, na pessoa que não compreende a terapêutica, na ausência de acompanhamento regular ou na dificuldade em aceder aos cuidados de saúde.

É precisamente neste espaço, entre a resposta urgente e a compreensão do contexto de vida, que o Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária acrescenta valor ao Serviço de Urgência. A sua intervenção não substitui a resposta técnica, diferenciada e imediata que este contexto exige; complementa-a com um olhar centrado na pessoa, na família e na comunidade. Um olhar que se projeta para além de um ambiente maioritariamente hostil, identifica situações de risco, promove literacia em saúde e procura favorecer a continuidade de cuidados entre o hospital, os cuidados de saúde primários e os recursos comunitários.

IO contributo do Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária no Serviço de Urgência assenta na integração da avaliação clínica com uma leitura dos determinantes sociais da saúde, reconhecendo que fatores como isolamento, fragilidade familiar, dependência funcional, baixa literacia em saúde, dificuldades económicas, sobrecarga do cuidador ou ausência de acompanhamento regular influenciam o risco de doença, a procura de cuidados, a adesão terapêutica e a segurança após a alta.

Como referido, esta abordagem não dilui a prioridade da resposta urgente; pelo contrário, qualifica-a. Ao identificar precocemente situações de vulnerabilidade, o enfermeiro especialista contribui para decisões mais ajustadas, para um planeamento de alta mais seguro e para a redução de riscos evitáveis. A estabilização clínica é fundamental, mas torna-se insuficiente se a pessoa regressar ao mesmo contexto sem compreender o plano terapêutico, sem suporte adequado ou sem orientação para os recursos de saúde e comunitários de que necessita.

Neste sentido, a promoção da literacia em saúde assume particular relevância. Mesmo em contactos breves. A comunicação clara, a validação da compreensão, o envolvimento da família ou cuidador e a orientação para sinais de alarme e recursos adequados podem promover a autonomia da pessoa, favorecer a adesão ao regime terapêutico e prevenir recorrências evitáveis que tantas vezes são sistemáticas.

A nossa realidade evidencia que o caminho a percorrer é longo, marcado por obstáculos, assimetrias e oportunidades por cumprir. Contudo, a continuidade de cuidados constitui um eixo central desta intervenção. Situado entre o hospital e a comunidade, o Serviço de Urgência é frequentemente o ponto onde se tornam visíveis falhas de acompanhamento, necessidades não satisfeitas e trajetórias de fragilidade. O Enfermeiro Especialista em Enfermagem Comunitária pode atuar como facilitador desta transição, promovendo articulação com os cuidados de saúde primários, equipas comunitárias, família, cuidadores, serviço social e outros recursos disponíveis.

É deste modo que, a Enfermagem Comunitária no Serviço de Urgência acrescenta valor clínico, ético e organizacional: clínico, porque amplia a avaliação da pessoa; ético, porque reconhece vulnerabilidades que condicionam a equidade em saúde; organizacional, porque favorece respostas mais integradas, sustentáveis e centradas nas necessidades reais da população. Cuidar com olhar comunitário é transformar um episódio agudo em prevenção, capacitação e continuidade. É afirmar a cientificidade da Enfermagem num lugar onde a vida exige uma resposta imediata.

Afinal, o que tem a Comunidade a ver com a Urgência? Tudo.

 

 


ONDE O CUIDADO ACONTECE

 

Tânia Moreira Gonçalves

Enfermeira em funções de Gestão

Unidade Psiquiátrica da Infância e Adolescência e Serviço de Psiquiatria de Saúde Mental da Infância e Adolescência

A adolescência não é um lugar estável. É um território em deslocamento. Um corpo que cresce mais depressa do que o pensamento, um pensamento que corre mais depressa do que as palavras, e palavras que, muitas vezes, não chegam a tempo. Na adolescência, tudo está em excesso: o sentir, o medo, o desejo de pertencer e a urgência de fugir. É também aí que a saúde mental se torna visível — não como diagnóstico, mas como pergunta.

Enquanto enfermeira gestora da Unidade psiquiátrica integrada para adolescentes, que inclui internamento e hospital de dia, trabalho num espaço que, por definição, é provisório. O hospital não é casa. O hospital é paragem. É um lugar onde se interrompe a queda, mas não onde se aprende a caminhar.

O internamento é necessário quando o mundo se torna perigoso demais — por dentro ou por fora. Há momentos em que conter é cuidar, em que limitar é proteger. Mas nenhuma adolescência pode ser pensada em clausura prolongada. O excesso de paredes pode organizar o corpo, mas raramente organiza a vida. A vida acontece noutro lugar.

Talvez a saúde mental dos adolescentes se jogue precisamente nesta tensão entre ordem e mundo. O hospital oferece ordem: horários, regras, diagnósticos, planos. A comunidade oferece mundo: ruído, imprevisto, relação, conflito. Um adolescente precisa dos dois. Mas se lhe oferecermos apenas a ordem, devolvemo-lo ao mundo despreparado. Se o largarmos apenas no mundo, deixamo-lo sem ferramentas para pensar o caos.

O hospital de dia surge como tentativa de diálogo entre estes dois espaços. Permite ir e voltar. Entrar e sair. Ensaiar a vida com rede. Ainda assim, esta resposta só se completa quando o cuidado se estende para fora do hospital, quando aceita que o sofrimento psíquico não é um fenómeno isolado no indivíduo, mas algo que se distribui pelos contextos que o rodeiam.

A saúde mental não reside apenas no cérebro; reside nas relações. Na escola que exclui ou acolhe. Na família que escuta ou silencia. No bairro que protege ou expulsa. Intervir fora do hospital é reconhecer que o sofrimento do adolescente é, muitas vezes, um sintoma de uma rede fragilizada. E que cuidar implica, inevitavelmente, reconstruir essa rede.

Criar articulação com a comunidade não é um gesto administrativo. É um gesto ético. É admitir que nenhuma instituição detém o saber completo sobre um jovem. É aceitar que o cuidado se faz em conjunto, entre profissionais que falam línguas diferentes, mas que partilham uma responsabilidade comum. É aceitar a imperfeição do trabalho em rede, com os seus atrasos, desencontros e falhas — porque a vida também é assim.

Enquanto enfermeiros, ocupamos um lugar intermédio: entre o corpo e a palavra, entre o hospital e o território, entre a crise e a continuidade. O nosso trabalho não é apenas tratar sintomas, mas sustentar percursos. Garantir que a alta clínica não seja uma queda livre. Fazer com que o adolescente não saia apenas “melhor”, mas acompanhado.

Talvez seja preciso repensar a ideia de sucesso em saúde mental. Não como ausência de crise, mas como capacidade de permanecer no mundo. De errar sem desaparecer. De sofrer sem se perder completamente. Para isso, o cuidado precisa de sair do hospital e espalhar-se, discretamente, pelos lugares onde a vida insiste em acontecer.

Porque um adolescente não se constrói num edifício. Constrói-se numa rede. E quando essa rede existe, o hospital deixa de ser o centro — e passa a ser apenas um dos pontos de apoio. Um ponto necessário, mas nunca suficiente.

 

 


O PAPEL DO ESPECIALISTA EM ENFERMAGEM DE SAÚDE MENTAL E PSIQUIÁTRICA NO CUIDADO AO DOENTE HEMATO-ONCOLÓGICO

 

Quando era mais novo definia-me como ator (…)

Depois tornei-me marido (…) e pai (…)

Podia-me definir como um pai, marido e sustento capaz, forte e amoroso (…)

              E este ano (…) tive de olhar a minha mortalidade nos olhos.

E todas estas definições que eu adorava tão profundamente foram-me retiradas (…)

E então fui assolado por esta questão (…) o que sou eu?

James Van Der Beek, 2025

 

Clara Almeida

Mestre em Enfermagem na área Especialização em Saúde Mental e Psiquiátrica

Mestre em Cuidados Paliativos

Centro Ambulatório – Hospitais de Dia

O diagnóstico de doença Hemato-Oncológica e tratamentos subsequentes encerra, ainda, uma conotação negativa e fatal, associada a muito sofrimento, podendo desencadear reações psicológicas e emocionais intensas nos utentes e familiares. As incertezas e desafios destas doenças colocam toda a estrutura familiar sob elevados níveis de stress e ansiedade.

As pessoas que se encontram a viver processos de sofrimento, alteração ou perturbação mental têm ganhos em saúde quando cuidados por enfermeiros especialistas em enfermagem de saúde mental e psiquiátrica (EESMP), diminuindo significativamente o grau de incapacidade que estas perturbações originam. O EESMP compreende os processos de sofrimento, alteração e perturbação mental do cliente assim como as implicações para o seu projeto de vida, o potencial de recuperação e a forma como a saúde mental é afetada pelos fatores contextuais” como refere o Preâmbulo do Regulamento de Competências Específicas do Enfermeiro Especialista de Saúde Mental e Psiquiátrica (EESMP), e são estas dimensões que este trabalha diariamente, com o objetivo de diminuir o sofrimento psico – emocional.

O confronto com a própria mortalidade e a de alguém que nos é próxima leva-nos a reavaliar a nossa vida, o legado que queremos deixar, para além da necessidade de realizar os lutos sucessivos dos papéis que desempenhamos e que definem a nossa posição no mundo, na família e na sociedade. Isto pode colocar a pessoa num extremo sofrimento psicológico, mental e espiritual, o que torna o papel do Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiátrica crucial no cuidado ao utente hemato-oncológico.

Durante o processo de doença o Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiátrica cria uma relação terapêutica com o utente e família, permitindo a expressão de sentimentos e ajudando a desenvolver o seu potencial; promove estratégias para enfrentar as incertezas e desafios que a doença hemato-oncológica coloca, realizar o luto dos papéis que desempenhava e a redefinir-se como pessoa. Para além disso ajuda a preparar o futuro após a doença, transformando o que pode ser uma experiência devastadora numa experiência de aprendizagem e de empowerment.

Todo este processo começa com uma escuta ativa e uma comunicação empática, que fornecem a confiança e o apoio necessário à relação terapêutica como facilitador da integração das experiências, atribuição de significados e reconhecimento e utilização das capacidades cognitivas da pessoa para integrar e desenvolver esses significados.

Para tal, é necessário um enfermeiro capacitado para escutar e compreender de que forma a pessoa está a vivenciar a doença e os tratamentos, bem como que significados lhe está a atribuir. Tal permite-lhe ajudar a pessoa a reconhecer e utilizar as suas capacidades psico-emocionais para resignificar experiências e integrar significados, de modo a criar ou desenvolver mecanismos de coping para uma saúde mental positiva e planeamento do futuro para lá da doença oncológica.

O Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiátrica tem, assim, um papel preponderante no processo de doença e cura da pessoa com doença hemato-oncológica. Quando a cura já não é uma possibilidade, este funciona como auxiliador na realização das tarefas de fim-de-vida, tanto para a pessoa como para os familiares.