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O Serviço de Ortopedia da ULS Santa Maria utilizou recentemente uma técnica cirúrgica pioneira em Portugal para o tratamento de feridas complexas das pernas. Este procedimento inovador evita situações de amputações, que eram, até agora, as únicas alternativas quando todas as abordagens possíveis nesses casos tinham falhado.
“Trata-se de um procedimento com resultados muito promissores para doentes com feridas crónicas de elevada complexidade”, explica Carlos Marques, diretor do Serviço de Ortopedia. As duas primeiras intervenções no Hospital de Santa Maria decorreram no mesmo dia, na última semana de junho, e foram antecedidas por uma sessão clínica promovida pela Unidade de Reconstrução e Alongamento Ósseo do Serviço de Ortopedia. A iniciativa contou com a participação do Professor César Salcedo Cánovas, referência europeia em ortopedia reconstrutiva, que partilhou a sua experiência na aplicação da técnica de Transporte Tibial Transversal (TTT) em doentes com feridas crónicas do membro inferior.
Durante a sessão, o especialista espanhol apresentou diversos casos clínicos da sua prática, tendo participado depois nas duas cirurgias realizadas na ULSSM. A técnica é utilizada noutros países europeus, incluindo Espanha, onde foram já realizadas cerca de uma dúzia de intervenções com resultados muito positivos.

Nilsa, são-tomense de 39 anos, foi a primeira a entrar no bloco de Santa Maria para ser tratada com esta técnica. De sorriso fácil, sem nunca perder a boa disposição e o otimismo, confessa que estava receosa. “O medo de perder a perna caso não aceitasse esta hipótese de tratamento falou mais alto e no momento de aceitar o procedimento, não pensei duas vezes”.
Uma semana depois da cirurgia, Nilsa está ainda otimista. “Já passei por tanto, que agora quero acreditar que algo de bom está reservado para mim”. Em São Tomé e Príncipe tinha sido amputada aos 18 anos, depois de uma ferida grave que não cicatrizava. Só aos 20 anos, quando fez outra ferida na perna agora intervencionada e veio para Portugal, ao abrigo de um intercâmbio com os Países Africanos de Língua portuguesa, foi diagnosticada com drepanocitose. Com o tempo, os médicos não tinham dúvidas: Esta doença genética e hereditária que provoca anemia crónica, obstrução de vasos sanguíneos e crises de dor severa, agravava o risco de uma segunda amputação.

O procedimento agora utilizado consiste na colocação de um mini-fixador externo na região proximal da tíbia, permitindo realizar o Transporte Tibial Transversal (TTT). O objetivo é estimular a angiogénese, aumentar a vascularização local e favorecer a cicatrização de feridas resistentes aos tratamentos convencionais.
A técnica compreende a osteotomia controlada de um pequeno fragmento da cortical da tíbia, seguida da sua distração lateral progressiva através do fixador externo. Este estímulo mecânico desencadeia um processo de formação de novos vasos sanguíneos, melhorando a perfusão dos tecidos e criando condições para a cicatrização.
A intervenção teve como objetivo tratar a ferida na perna de Nilsa e evitar uma segunda amputação. “Atuámos sobre uma ferida cuja evolução previsível, sem esta alternativa terapêutica, seria idêntica à da outra perna”, explica Carlos Marques.
O segundo caso operado corresponde a um doente com pé diabético complexo, em que todas as opções terapêuticas convencionais haviam sido esgotadas e a amputação constituía igualmente a única alternativa.
“São situações em que nenhum outro tratamento consegue promover a cicatrização da ferida”, acrescenta o diretor do Serviço de Ortopedia.
Embora a técnica seja executada pela equipa de Ortopedia, a seleção e o acompanhamento dos doentes envolvem diferentes especialidades, nomeadamente Cirurgia Vascular, refletindo a natureza multidisciplinar desta abordagem.
Após a colocação do mini-fixador externo, o seguimento clínico é igualmente realizado por uma equipa multidisciplinar, assegurando a monitorização da cicatrização, a prevenção de infeções e a gestão global da evolução clínica dos doentes.
Na consulta de seguimento de Nilsa, o cirurgião Delfim Tavares congratulou-se com os resultados. A ferida já apresenta alguma vascularização, sinais positivos de que a cicatrização vai avançar, de forma a poder passar à fase seguinte que seria a de um eventual enxerto.
Apesar de envolver uma intervenção óssea, trata-se de um procedimento minimamente invasivo, realizado por via percutânea. Após um período de latência, entre cinco e sete dias. “Nilsa inicia agora a expansão óssea de forma gradual, habitualmente a um ritmo de um milímetro por dia, durante dez dias”, especifica o responsável e impulsionador da Unidade de Reconstrução Óssea. Depois de alguns dias de estabilidade, passamos então à fase de diminuição da expansão, até ser possível retirar o dispositivo, o que pode demorar um a dois meses.
Quando chegou a Portugal, com apenas 20 anos, uma perna amputada e muito pouca literacia, Nilsa não podia adivinhar que passados alguns anos chegaria a este momento. Uma história de enorme superação suportada por uma grande fé. Mas sobretudo um exemplo de força e vontade, que a levaria a estudar, tirar a carta de condução, trabalhar e desde há pouco mais de um ano casar em Portugal. Agora, Nilsa pensa em recuperar.
A realização destas primeiras intervenções representa uma viragem na prática clínica e uma nova esperança para os doentes com feridas crónicas complexas que agora contam com uma nova perspetiva de tratamento bem diferente.
Parabéns à equipa da ULSSM que abriu caminho a uma nova abordagem promissora.