
Helena Bernardes
Anterior Enfermeira Adjunta – Direção de Enfermagem da ULS Santa Maria
Atual Técnica Especialista/Acessora do Gabinete da Ministra da Saúde
Gosto da imagem de um moinho.
Gosto da imagem de um moinho. O moinho não escolhe o vento. Não o controla. Também não desperdiça energia a lutar contra ele. Transforma a sua força em movimento. Talvez seja esta uma boa imagem para a enfermagem dos nossos dias.
Vivemos tempos exigentes. As necessidades dos cidadãos são cada vez mais complexas, as equipas trabalham sob pressão, os recursos são limitados e a inteligência artificial, a robótica e a inovação digital estão a transformar rapidamente os cuidados de saúde. Perante esta mudança, importa perguntar: o que continuará a tornar a enfermagem indispensável?
A resposta não está apenas no que fazemos. Está na forma como transformamos conhecimento em cuidado, decisão clínica em segurança, presença em confiança e relação terapêutica em resultados para as pessoas.
A tecnologia analisará dados, antecipará riscos, apoiará decisões e executará tarefas com precisão crescente. Será uma aliada poderosa. Mas não substituirá a responsabilidade profissional, o julgamento clínico, a leitura da vulnerabilidade ou a capacidade de estar com a pessoa quando a doença, o medo ou a incerteza atravessam a sua vida. Humanizar não é fazer menos ciência. É garantir que a ciência serve verdadeiramente as pessoas.
Neste contexto, fala-se muitas vezes de autonomia profissional. A autonomia da enfermagem está juridicamente reconhecida e representa uma conquista essencial. Mas existe uma diferença entre autonomia reconhecida e autonomia plenamente exercida. Nenhum diploma decide por nós. Nenhum enquadramento legal substitui o conhecimento que sustenta uma decisão, a responsabilidade de quem a assume ou a confiança que nasce quando os resultados falam por si.
A autonomia começa na lei, mas concretiza-se todos os dias: na avaliação rigorosa, na decisão fundamentada, na prevenção de complicações, na promoção da autonomia, na educação para a saúde, na continuidade dos cuidados e na melhoria dos processos.
Durante muito tempo, a enfermagem foi frequentemente lida pela sua dimensão operacional. O futuro exige outra leitura: uma profissão reconhecida pelos resultados que alcança, pela segurança que acrescenta, pelas complicações que evita e pelo valor que cria para os cidadãos, para o SNS e para a sociedade. Porque a excelência que não se demonstra corre o risco de permanecer invisível. E o valor que não se torna visível dificilmente influencia decisões relevantes coletivas.
É aqui que a liderança ganha significado. Não apenas como cargo ou estatuto, mas como atitude profissional. Lidera quem assume responsabilidade, transforma conhecimento em melhores cuidados, procura soluções com rigor, utiliza a tecnologia sem se deixar conduzir por ela e nunca perde de vista a pessoa no centro de cada decisão.
Essa liderança pertence a todos: ao enfermeiro que inicia hoje a sua carreira, ao especialista, ao gestor, ao investigador, ao docente e a cada profissional que decide exercer plenamente a autonomia conquistada pela profissão e esperada pelo cidadão.
Os ventos continuarão a soprar. A verdadeira questão é saber se gastamos energia a resistir à mudança ou se a usamos para fazer avançar o moinho. Porque o futuro não pertence às profissões que apenas resistem ao vento. Pertence às que aprendem a construir moinhos.