ARTIGOS CIENTÍFICOS
PELO MOVIMENTO PROMOVEMOS MAIS SAÚDE – O IMPACTO DE UM PROJETO DE INTERVENÇÃO COMUNITÁRIA EM PESSOAS COM HIPERTENSÃO ARTERIAL
Natalina Marisa Santos do Paço
Enfermeira Especialista em Enfermagem Comunitária
USF Professor Guilherme Jordão
natalina.paco@ulssm.min-saude.pt
ORCID: 0000-0002-7763-1121
Matilde Santos
Enfermeira Especialista em Enfermagem Comunitária
USF Professor Guilherme Jordão
Resumo
O projeto comunitário “Pelo movimento promovemos mais saúde” foi desenvolvido na USF Professor Guilherme Jordão entre 2025 e 2026 com o objetivo de promover estilos de vida saudáveis em pessoas com menos de 65 anos, com hipertensão arterial. Inspirado no programa Walk With a Doc, combinou consultas de enfermagem, sessões de educação para a saúde e caminhadas. Ao longo dos dois anos, verificou-se um aumento da adesão às atividades. A avaliação revelou melhorias nos conhecimentos sobre hipertensão, na autogestão do regime terapêutico e na prática de atividade física. Apesar dos resultados positivos, concluiu-se que a manutenção e expansão do projeto são essenciais para consolidar ganhos em saúde e alcançar mais utentes.
Palavras-chave:
Hipertensão; Educação em Saúde; Exercício Físico; Adesão e Cumprimento do Tratamento.
Introdução
Em 2021, as mortes por doença representaram 95,7% do total de óbitos registados em Portugal, assumindo as doenças do aparelho circulatório o papel de principal causa de mortalidade (25,9%)1. Os fatores de risco associados ao desenvolvimento destas patologias encontram-se estruturados em duas grandes categorias: os não modificáveis, de cariz intrínseco e nos quais não é possível intervir preventivamente2, tais como a idade, o género, a etnia/raça e a história pessoal ou familiar de doença cardiovascular; e os modificáveis, onde existe margem para correção comportamental ou clínica, destacando-se o tabagismo, o padrão alimentar, o consumo de álcool, o sedentarismo, os fatores psicossociais, a dislipidémia, a diabetes mellitus, a obesidade, as alterações do sono e a hipertensão arterial (HTA).
A HTA configura-se como o fator de risco cardiovascular de maior prevalência global, afetando, de acordo com as estimativas da Organização Mundial da Saúde, cerca de 1,28 mil milhões de adultos com idades compreendidas entre os 30 e os 79 anos. No panorama nacional, estima-se que a prevalência de HTA na população adulta atinja 42,6%3. Deste contingente populacional, aproximadamente 70% dos indivíduos hipertensos encontram-se sob terapêutica farmacológica; contudo, apenas 46% apresentam valores tensionais controlados4. Esta lacuna no controlo clínico é fortemente potenciada pelo défice de adesão à terapêutica, verificado na maioria dos doentes hipertensos, o que compromete significativamente a eficácia do tratamento e eleva o risco de complicações cardiovasculares5.
No contexto de cuidados de saúde primários, especificamente na Unidade de Saúde Familiar Professor Guilherme Jordão (USFPGJ), identificou-se que, em 2024, cerca de 9% (n=671) dos utentes inscritos com menos de 65 anos apresentavam diagnóstico de HTA.
Face a esta realidade, a Sociedade Europeia de Cardiologia preconiza a implementação de intervenções continuadas de educação para a saúde, com o propósito de assegurar mudanças sustentadas no estilo de vida de indivíduos com patologias cardiovasculares2. Neste âmbito, cabe aos profissionais de saúde capacitar os utentes para a aceitação ativa do seu estado de saúde, promovendo, em simultâneo, a consciencialização sobre a estreita relação entre os hábitos diários e a evolução da própria doença cardiovascular2.
Perante este enquadramento, iniciou-se, em 2025, o projeto comunitário “Pelo movimento promovemos mais saúde (PMPMS)”, com a finalidade de contribuir ativamente para os ganhos em saúde anteriormente descritos. Este projeto assume como modelo de referência o programa de intervenção comunitária Walk With a Doc, fundado em 2005, no Ohio, pelo médico cardiologista Dr. David Sabgir6.
Objetivos
Promover hábitos de vida saudáveis na população com idade inferior a 65 anos, diagnosticada com HTA e inscrita na USFPGJ. Para operacionalizar este propósito central, definiram-se como metas a melhoria dos conhecimentos dos participantes relativamente à HTA e a gestão do seu regime terapêutico, bem como o incentivo da prática de atividade física regular entre os utentes integrados no projeto.
Metodologia
O projeto “Pelo movimento promovemos mais saúde” (PMPMS) baseou-se na metodologia de planeamento em saúde e foi implementado ao longo dos anos de 2025 e 2026.
A população-alvo consistiu em utentes com idade inferior a 65 anos e diagnóstico de HTA, inscritos na USF Professor Guilherme Jordão (USFPGJ), que realizaram uma consulta de enfermagem prévia à intervenção. Foram excluídos os indivíduos com défice cognitivo, contraindicação médica, incapacidade física para realizar caminhadas ou que manifestaram recusa em participar.
O desenvolvimento do projeto estruturou-se de forma sequencial:
- Avaliação inicial: Efetuada nas consultas de enfermagem (que também serviram para o encaminhamento dos utentes), na qual se avaliou o conhecimento sobre a HTA, a gestão do regime terapêutico e a prática prévia de exercício físico.
- Sessões de educação e caminhadas: Realizadas na freguesia de São Domingos de Benfica, foram dinamizadas por enfermeiras da USFPGJ, contando com a colaboração de médicos, de uma nutricionista e de uma fisioterapeuta da Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados de Sete Rios. Em 2025, abordaram-se temas como a HTA, os hábitos de sono, a relação entre alimentação e HTA, a atividade física, a diabetes, o tabagismo e o consumo de álcool. Em 2026, o programa foi reforçado com os seguintes temas: envelhecimento ativo e saudável e gestão do stress e ansiedade.
- Avaliação final: Repetição da avaliação diagnóstica inicial ao término do projeto para aferição dos resultados.
Resultados
No âmbito da captação de participantes, em 2025 realizaram-se 208 consultas de enfermagem, culminando na adesão de 38 utentes ao projeto. Em 2026, registaram-se 200 consultas, com a integração de 41 utentes (Gráfico 1). Relativamente à assiduidade nas sessões de educação e caminhadas, observou-se um incremento na participação no segundo ano, com a média de presenças por atividade a subir de 9,3 em 2025 para 14,3 em 2026 (Gráfico 2).

A avaliação do impacto da intervenção evidenciou progressos em todas as dimensões analisadas:
- Conhecimento sobre a HTA: Na avaliação diagnóstica de 2026, antes da intervenção, 46,3% dos participantes não conheciam as complicações da HTA, 41,5% careciam de conhecimentos sobre a autovigilância e 56,1% sobre a prevenção da patologia. Após a intervenção, estes valores decresceram para 22%, 26,8% e 39%, respetivamente (Gráfico 3), tendo sido observados resultados semelhantes no ano de 2025.
- Gestão do regime terapêutico: No ano de 2025, registou-se uma melhoria expressiva nesta área, com a taxa de participantes com compromisso na gestão do regime terapêutico a decrescer de 70% (no início do projeto) para 24% (na avaliação final). Em 2026, a taxa inicial de compromisso situava-se nos 53,7%, sofrendo uma redução para 39% no término da intervenção (Gráfico 4).
- Prática de exercício físico: O sedentarismo registou um recuo progressivo em ambos os anos. Em 2025, a taxa de utentes que não praticavam exercício físico reduziu de 70% para 57%. No ano de 2026, verificou-se uma tendência homóloga, com uma diminuição de 71% para 60% na avaliação final (Gráfico 5).


Conclusão
A avaliação final do projeto PMPMS, após dois anos de vigência, demonstra que os objetivos propostos foram alcançados, evidenciando-se melhorias no conhecimento sobre a patologia, na autogestão do regime terapêutico e na adesão à atividade física. Contudo, a consolidação de resultados clínicos e comportamentais mais robustos carece de uma intervenção continuada e mais prolongada no tempo, de forma a também abranger um maior número de utentes.
O projeto teve como principais mais-valias o fortalecimento do vínculo com a comunidade e a colaboração de uma equipa multidisciplinar composta por enfermeiros, médicos, fisioterapeuta e nutricionista. Por sua vez, apontam-se como aspetos a aprimorar a captação de um número maior de utentes, a maior disponibilidade de profissionais para o incremento das sessões e o desenvolvimento de parcerias com instituições locais.
De forma geral, os participantes expressaram um elevado grau de satisfação com o programa, demonstrando interesse em continuar a integrar iniciativas similares e sugerindo a abordagem de novos temas de saúde.
Referências
- Instituto Nacional de Estatística. Estatísticas da Saúde: 2022. Lisboa: INE; 2024. Disponível em: https://www.ine.pt/xurl/pub/439489924. ISBN: 978-989-25-0685-2. ISSN: 2183-1637.
- Homem F, Caetano A, Reveles A, Martins H, Sousa J, Rodrigues L, et al. Manual de apoio à consulta de enfermagem ao utente com patologia cardiovascular [Internet]. Lisboa: Ordem dos Enfermeiros; 2022 [citado 2026 ago 23]. Disponível em: Manual de apoio à consulta de enfermagem ao utente com patologia cardiovascular.
- Polonia J, Martins L, Pinto F, Nazare J. Prevalence, awareness, treatment and control of hypertension and salt intake in Portugal: changes over a decade. The PHYSA study. J Hypertens. 2014;32(6):1211-1221. doi:10.1097/HJH.0000000000000162.
- Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Estudo e_COR: prevalência de fatores de risco cardiovascular na população portuguesa. Lisboa: INSA, IP; 2019. ISBN: 978-989-8794-60-4.
- Mancia G, Rea F, Corrao G, Grassi G. Two-drug combinations as first-step antihypertensive treatment. Circ Res. 2019;124(7):1113-1123. doi:10.1161/CIRCRESAHA.118.313294.
- Walk with a Doc. Program overview [Internet]. Columbus (OH): Walk with a Doc; 2024 [citado 2026 ago 23]. Disponível em: https://walkwithadoc.org/overview/.
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