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Uma equipa multidisciplinar da UL S Santa Maria, constituída por elementos da Pediatria, Pneumologia e Anestesiologia, realizou recentemente uma técnica pioneira no nosso país: a primeira colocação em Portugal de uma prótese biodegradável na traqueia de uma criança, evitando a necessidade de uma traqueostomia. Abigail, que nasceu com uma malformação congénita e esteve mais de quatro meses dependente de ventilação mecânica, está agora em casa a respirar normalmente.
A malformação congénita da criança comprometia a sua capacidade respiratória. Nos primeiros quatro meses de vida, precisou de suporte de ventilação, uma vez que uma parte da traqueia colapsava sempre que se tentava retirar o ventilador, impedindo-a de respirar autonomamente.
A traqueostomia – procedimento cirúrgico que cria uma abertura na parte anterior do pescoço diretamente na traqueia, permitindo a inserção de uma cânula para a passagem de ar – apresentava-se como a solução mais provável. Mas, neste caso, comportava riscos acrescidos, tendo em conta algumas particularidades da condição clínica e a idade da bebé.
Apesar de ter sido submetida a uma cirurgia inicial noutro hospital para corrigir uma malformação vascular, embora a aorta já não comprimisse a traqueia, esta colapsava a cada inspiração, dificultando a passagem do ar e impedindo uma respiração natural. Perante este cenário, a equipa multidisciplinar de Santa Maria decidiu procurar uma alternativa à traqueostomia. A solução surgiu em Espanha, no Hospital Universitário La Paz, em Madrid, onde estava a ser utilizada uma técnica inovadora, com resultados muito promissores em crianças com situações clínicas semelhantes.
“Pusemos a hipótese de colocar um stent biodegradável. Uma técnica inovadora que estava a ter bons resultados em Espanha”, explica Francisco Abecasis, diretor do Serviço de Pediatria Médica da ULSSM.
Francisco Abecasis e Francisco Freitas, médico do Serviço de Pneumologia, avançaram com a proposta. Assim que as condições clínicas permitiram, a bebé viajou para Madrid em julho deste ano, acompanhada pelos médicos e pela família, onde foi realizada a primeira intervenção.

Os resultados foram imediatos. “Um dia depois de termos colocado a prótese, foi retirado o ventilador e correu tudo bem”, recorda o pediatra. Depois de mais de quatro meses de ventilação mecânica, Abigail conseguiu respirar sem dificuldades e sem necessidade de suporte de ventilação.
Depois de 3 semanas em Espanha, e já de regresso a Lisboa, a bebé permaneceu ainda algumas semanas internada na Pneumologia Pediátrica de Santa Maria, para acompanhamento e avaliação da sua evolução clínica, antes de regressar a casa em agosto.
A solução, contudo, não era definitiva. Por serem biodegradáveis, estas próteses vão-se degradando e sendo absorvidas pelo organismo ao longo do tempo. Entretanto, foi necessário um segundo procedimento e colocação de novo stent um pouco maior, adequado às necessidades devido ao crescimento da criança.
A colocação da segunda prótese foi então programada para o início do mês de outubro e já foi feita, pela primeira vez, em Portugal, no Serviço de Pneumologia da ULSSM – Hospital de Santa Maria. Desta vez, o Professor Carlos de la Torre, cirurgião torácico do Hospital La Paz, veio acompanhar esta primeira intervenção no nosso País.

Apesar de alguma aparente simplicidade com a técnica, há desafios inerentes ao procedimento. “Enfrentámos os desafios de ser um bebé. Os instrumentos que temos que usar são à medida. A própria traqueia não comporta instrumentos maiores”, explicou o pneumologista Francisco Freitas.
Também no âmbito da anestesia foi a primeira intervenção com a colocação do stent biodegradável na via aérea. Com todas as particularidades inerentes, desde o próprio equipamento às vias aéreas mais pequenas da criança. “Outro grande desafio foi manter sempre a criança em ventilação espontânea, que era algo importante para a equipa”, destaca a anestesista responsável pelo procedimento, Célia Mendes Xavier.
Quase aos oito meses, Abigail pôde regressar novamente a casa a respirar normalmente. Para os pais, Misa e Walter Gomes, o momento foi particularmente emocionante. “Os dois irmãos, de nove e sete anos, estavam ansiosos por poder partilhar o seu tempo com a irmã e tê-la em casa”.
A solução encontrada pela equipa foi, para esta família, considerada como “um milagre”. Depois de meses de incerteza e de internamento, poderem finalmente ter a filha nos braços, sem ventilação mecânica e a respirar autonomamente, representou “o melhor que nos podia ter acontecido. Estamos muito contentes!”.