
A disfagia é uma complicação frequente em doentes internados no serviço de Medicina 1 – setor D, associando-se a pneumonia de aspiração, desnutrição, desidratação, aumento da demora média de internamento e aumento da mortalidade, o que reforça a importância de um rastreio precoce e sistemático para melhorar a segurança do doente, no que diz respeito à disfagia e às complicações associadas. Atendendo que, no serviço, existe uma elevada prevalência de doentes com fatores de risco, tornou-se evidente a necessidade de implementar um protocolo estruturado de avaliação da deglutição.
Neste processo, a Enfermagem de Reabilitação desempenhou um papel central, dado que a sua prática especializada se foca na avaliação da funcionalidade e na prevenção de complicações, tais como as relacionadas com a deglutição. Assim, foi definido e operacionalizado um protocolo baseado na Escala de GUSS (Gugging Swallowing Screen), instrumento validado e amplamente utilizado no rastreio de disfagia.
Após aprovação pela Direção de Enfermagem, em 2024, iniciou-se o processo de formação da equipa e a implementação do protocolo, que estabelece a avaliação obrigatória nas primeiras 24 horas de internamento para todos os doentes com critérios de risco. Definiram-se como critérios: doente institucionalizado com idade; 65 anos; Pneumonia; DPOC Agudizada; Insuficiência respiratória; Escala de Coma de Glasgow < 15; AVC atual ou prévio; Neoplasia da cabeça ou pescoço; Disfagia prévia; Doenças neurodegenerativas; Doenças do neurónio motor. Com esta avaliação foi possível promover intervenções atempadas reduzindo complicações associadas. A utilização sistemática da Escala de GUSS permite identificar precocemente a presença de disfagia e orientar de imediato a adaptação da dieta, reforçando o papel do enfermeiro na vigilância clínica e na prevenção de eventos adversos relacionados com a deglutição.
Após a implementação do protocolo, procedeu-se à análise comparativa dos doentes incluídos antes e após a intervenção, de forma a caracterizar a amostra e enquadrar os outcomes avaliados. Nesta secção apresentam-se, numa primeira etapa, as variáveis clínicas contínuas e os principais indicadores demográficos e funcionais dos grupos em estudo, permitindo verificar a sua comparabilidade de base e reduzir o risco de enviesamento por diferenças na gravidade clínica. Em seguida, descrevem-se os critérios de inclusão e o perfil de deglutição dos doentes avaliados, bem como o impacto observado nos principais resultados clínicos.
Tabela 1 – Caracterização das variáveis clínicas contínuas dos doentes, expressas em mediana e intervalo interquartil (IIQ), por grupo de estudo.

Os grupos apresentaram características demográficas e clínicas semelhantes, garantindo que os resultados não foram enviesados por diferenças na gravidade dos doentes. A mediana de idade situou-se entre os 79 e 81 anos, com uma elevada prevalência de dependência funcional (Barthel baixo) e fragilidade (Clinical Frailty Scale média de 6).
Tabela 2 – Caracterização dos critérios de inclusão dos doentes antes e após a implementação do programa de intervenção na disfagia.

Com a aplicação sistemática da escala, foi possível traçar o perfil de deglutição dos nossos doentes:

Figura 1 – Distribuição do score GUSS à admissão nos doentes incluídos no estudo pós-implementação
Score Guss médio à admissão – 15.15
Mediana – 20
IIQ – 6

Figura 2 – Distribuição do grau de disfagia à admissão nos doentes incluídos no estudo pós-implementação
O impacto mais significativo da intervenção verificou-se na redução direta de incidentes críticos durante o internamento.
Tabela 3 – Comparação dos outcomes clínicos dos doentes durante o internamento, antes e após a implementação do programa de intervenção na disfagia.


Figura 3 – Efeito do programa de intervenção na disfagia nos outcomes clínicos durante o internamento, expresso como diferença absoluta de risco (pós-implementação menos pré-implementação), em pontos percentuais
A redução absoluta dos episódios de engasgamento foi de 12.1 pontos percentuais. Estatisticamente, isto traduz-se num Risco Relativo (RR) de 5.07 no pré avaliação em relação ao período após implementação da avaliação sistemática da disfagia, o que significa que um doente antes da implementação tinha 5 vezes mais probabilidade de sofrer um engasgamento do que após a introdução do protocolo.
Os resultados demonstram que a avaliação precoce e sistemática da deglutição pela enfermagem não constitui apenas uma etapa do processo assistencial, mas uma intervenção vital na redução de eventos adversos. A redução significativa dos engasgamentos e da pneumonia nosocomial valida a eficácia da Escala de GUSS como ferramenta de triagem à cabeceira do doente.
Embora alguns indicadores, como a pneumonia de aspiração, tenham demonstrado uma descida menos acentuada (devido à raridade do evento na amostra), a tendência global é de uma melhoria drástica na segurança.
A implementação deste protocolo representa um passo estruturante na segurança da alimentação e melhoria contínua da qualidade dos cuidados no nosso serviço. Provamos que intervenções simples, baseadas em evidência e integradas na prática diária, têm o potencial de salvar vidas, reduzir o tempo de internamento e prevenir complicações evitáveis em Medicina Interna. Este programa reafirma a autonomia e a importância da Enfermagem de Reabilitação na gestão do doente complexo.