EDITORIAL

 

Sara Correia

Enfermeira Adjunta – Direção de Enfermagem

Hospital Pulido Valente – ULS Santa Maria

A Enfermagem atravessa, na atualidade, um dos períodos mais desafiantes e, simultaneamente, mais produtivos da sua longa história. Como Enfermeira Gestora e Adjunta da Direção de Enfermagem, tenho o privilégio, e a responsabilidade, de observar, na primeira linha, a extraordinária resiliência das nossas equipas. Contudo, o que hoje testemunhamos na nossa Unidade Local de Saúde ultrapassa a mera capacidade de resistência: assistimos à afirmação vigorosa de uma identidade profissional que se recusa a ser estática ou meramente reativa.

A nossa identidade não é um legado imóvel herdado do passado; é uma construção viva e dinâmica, alimentada diariamente pelos avanços científico-tecnológicos, alicerçada em princípios éticos inalienáveis e fortalecida por uma capacidade constante de adaptação a contextos de incerteza e imprevisibilidade. No paradigma atual, ser enfermeiro exige muito mais do que a reconhecida perícia técnica ou o domínio de procedimentos complexos. Exige uma autonomia intelectual e clínica que nos posiciona, por direito e competência, como pilares insubstituíveis na tomada de decisão em saúde.

Contudo, é fundamental reconhecer que esta autonomia não nasce por decreto, nem se impõe por mera hierarquia. Ela conquista-se no terreno, através do compromisso inabalável com a formação contínua e com a transposição da evidência científica para a prática diária — aquela que se exerce, com humanidade, à cabeceira do doente. A autonomia profissional é, na sua essência, o exercício da coragem de assumir a responsabilidade pelas nossas decisões e pelo impacto que elas têm na vida de quem cuidamos.

Enquanto gestores, o nosso papel fundamental é desenhar o ecossistema onde esta autonomia possa desenvolver-se. Gerir em Enfermagem é, acima de tudo, uma função de facilitação. O nosso objetivo é garantir que o talento, o conhecimento crítico e a dedicação dos nossos profissionais não se dissipem em labirintos burocráticos ou tarefas meramente administrativas. A gestão deve servir para converter o potencial humano em cuidados de excelência, assegurando que a segurança do utente seja sempre o norte que guia a nossa organização.

A evolução da nossa profissão exige que a sociedade e as instituições reconheçam a Enfermagem como ela é: uma ciência de cuidados com um corpo próprio de conhecimento. Cada vez que um enfermeiro investiga, questiona um protocolo instituído, propõe uma nova metodologia de intervenção ou lidera um processo de mudança estrutural, não está apenas a realizar o seu trabalho; está a elevar o padrão de toda uma classe e a valorizar o sistema de saúde: a criar valor!

Nesta edição da nossa revista, convido cada um de vós a refletir sobre o impacto que as suas ações individuais projetam na imagem pública e institucional da nossa profissão. O futuro da Enfermagem depende da nossa capacidade coletiva de manter este orgulho identitário, sem nunca permitir que a sofisticação técnica eclipse a humanidade e a empatia que nos definem.

Continuaremos empenhados em fazer da gestão um motor de suporte à vossa excelência clínica. Estamos convictos de que uma Enfermagem forte, autónoma e valorizada não é apenas um direito da classe, mas a maior garantia de um sistema de saúde resiliente, humano e preparado para os desafios do futuro.