NEURO REABILITAR: RESULTADOS QUE TRANSFORMAM CUIDADOS

 

Enfermeiros Especialistas em Enfermagem de Reabilitação: Ana Filipa Araújo, Anabela Ferreira, Ana Lúcia Lambuça, João Cabral

Serviço de Medicina Intensiva – Neurocríticos

 

A Unidade de Cuidados Intensivos de Neurocríticos da ULSSM integrou, em 2024, um projeto estruturado de intervenção precoce em Enfermagem de Reabilitação, desenvolvido por uma equipa de quatro Enfermeiros Especialistas em Enfermagem de Reabilitação.

O que começou como um projeto inovador evoluiu, em 2025, para um Programa de Melhoria Contínua, formalmente reconhecido e integrado na prática diária da unidade.

Esta evolução não resultou apenas da iniciativa de quatro profissionais, mas do compromisso de toda a equipa multiprofissional — médicos intensivistas, enfermeiros, Técnicas Auxiliares de Saúde, nutricionista, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e restantes profissionais — que aceitaram ajustar práticas e consolidar uma cultura de intervenção precoce centrada na funcionalidade e na individualidade da Pessoa.

Os nossos Resultados

Em 2025 iniciou-se a intervenção sistematizada e estruturada da Equipa de Enfermagem de Reabilitação. A avaliação da funcionalidade da Pessoa Neurocrítica passou a ser realizada de forma sistemática através da CPAx (Chelsea Critical Care Physical Assessment Tool), permitindo quantificar objetivamente o impacto da intervenção ao longo do internamento.

Os resultados demonstram:

  • Ganho funcional mediano de 7 pontos no CPAx (diferença entre avaliação inicial e final);
  • 83% dos doentes apresentaram melhoria funcional entre admissão e alta da UCI.

Estes números representam mais do que estatística — representam doentes que saem da Unidade de Cuidados Intensivos com maior capacidade funcional, maior potencial de autonomia e menor risco de incapacidade prolongada, favorecendo um regresso mais precoce à vida ativa.

Tempo faz a diferença

A intervenção precoce (≤ 48 horas após admissão) foi definida como indicador estruturante do programa.

Comparando doentes com intervenção precoce versus não precoce, verificou-se:

  • Redução mediana de 5 dias de ventilação mecânica invasiva (3 vs 8 dias);
  • Redução mediana de 5 dias no internamento em UCI (7 vs 12 dias).

A análise dos dados confirma, com significância estatística e consistência clínica, que a intervenção precoce em Enfermagem de Reabilitação constitui um fator determinante nos resultados obtidos. A atuação estruturada nas primeiras 48 horas associa-se a melhores ganhos funcionais, menor duração de ventilação mecânica e redução do tempo de internamento, evidenciando o valor diferenciador da prática especializada na Unidade de Neurocríticos.

Importa salientar que a implementação do programa decorre com critérios de inclusão bem definidos, avaliação clínica sistemática e monitorização contínua, não se registando aumento de eventos adversos associados à mobilização.

A intervenção é sempre ajustada ao estado hemodinâmico e neurológico, reforçando que reabilitação precoce não é precipitação — é decisão sustentada na mais recente evidência científica.

Conclusão

A experiência da Unidade de Neurocríticos demonstra que a Enfermagem de Reabilitação, quando estruturada, precoce e integrada numa equipa multiprofissional, produz ganhos clínicos mensuráveis e impacto organizacional relevante.

Mais do que números, este programa traduz uma mudança de paradigma: deixar de olhar apenas para a sobrevivência e passar a investir, desde o primeiro momento, na qualidade da recuperação. Cada ponto ganho na CPAx representa função preservada; cada dia reduzido de ventilação ou de internamento representa menor risco, menor fragilidade e maior esperança de autonomia.

Este percurso consolida o papel da Enfermagem de Reabilitação como elemento estratégico na diferenciação dos cuidados à Pessoa em Situação Crítica e reforça a capacidade da nossa equipa para transformar evidência científica em resultados concretos, sustentáveis e centrados na Pessoa.

Continuaremos a medir, a melhorar e a inovar – porque reabilitar, em Neurocríticos, é também cuidar do futuro funcional de quem sobrevive.