Artigos Cientificos

 

PARA ALÉM DA SOBREVIVÊNCIA: A IMPORTÂNCIA DA CONSULTA FOLLOW-UP EM CUIDADOS INTENSIVOS

Os avanços na medicina intensiva aumentaram a sobrevivência após doença crítica, evidenciando a Post-Intensive Care Syndrome (PICS), caracterizada por sequelas físicas, cognitivas e psicológicas que podem persistir por meses ou anos…

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TERAPIA COMPRESSIVA COMO TRATAMENTO DE RECONHECIDA EVIDÊNCIA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA.

As úlceras venosas dos membros inferiores (UVMI) são uma condição crónica prevalente, com elevada morbilidade e impacto socioeconómico….

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PARA ALÉM DA SOBREVIVÊNCIA: A IMPORTÂNCIA DA CONSULTA FOLLOW-UP EM CUIDADOS INTENSIVOS

Autores:

Marli Lopo Vitorino
Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica
Serviço de Medicina Intensiva, Unidade Local de Saúde de Santa Maria, Lisboa, Portugal
Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal
23131@chln.min-saude.pt
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7084-8304

Cristina Pires Edra Jerónimo
Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica
Serviço de Medicina Intensiva, Unidade Local de Saúde de Santa Maria, Lisboa, Portugal
Vogal do Núcleo de Especialidade de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, Lisboa, Portugal
17844@chln.min-saude.pt

 

Resumo:

Os avanços na medicina intensiva aumentaram a sobrevivência após doença crítica, evidenciando a Post-Intensive Care Syndrome (PICS), caracterizada por sequelas físicas, cognitivas e psicológicas que podem persistir por meses ou anos. Apesar do impacto significativo na qualidade de vida, o reconhecimento de PICS permanece limitado, contribuindo para subdiagnóstico e atraso na intervenção. A evidência recomenda consultas de follow-up multidisciplinares como estratégia para deteção precoce, prevenção e intervenção, promovendo continuidade de cuidados ao doente crítico e à família. Neste contexto, foi implementado, em 2022, o projeto Consulta de Follow-Up do Doente Crítico no Serviço de Medicina Intensiva da Unidade Local de Saúde de Santa Maria.

Objetivo

Prevenir a ocorrência de PICS através de uma abordagem centrada no doente e família e promover a melhoria contínua da qualidade dos cuidados.

Metodologia

Projeto de melhoria contínua baseado no ciclo Plan–Do–Study–Act (PDSA). Foi desenvolvido um protocolo estruturado com constituição de equipa multidisciplinar e definição de critérios de referenciação: internamento superior a 5 dias, SOFA superior a 5, delirium, fraqueza muscular adquirida, ventilação mecânica prolongada e dor de difícil controlo. A avaliação decorre em momentos sequenciais: baseline (admissão), momento zero (alta), momento um (2 semanas), momento dois (2 meses) e momento três (4–6 meses). São utilizados instrumentos validados para avaliação física (MRC, cPAX), cognitiva (CAM-ICU, MoCA), psicológica (HADS, PCL-C), nutricional (NRS-2002) e qualidade de vida (EuroQoL-5D). As consultas são realizadas presencialmente ou por via telefónica por médico e enfermeiro desde 2023. O projeto encontra-se em fase de análise dos dados recolhidos até 2025, permitindo caracterizar a população, identificar áreas de melhoria e desenvolver um protocolo de estudo observacional.

Resultados

Foram acompanhados 275 doentes, totalizando 942 consultas (374 primeiras e 568 subsequentes). A população apresentou idade média de 54 anos e predominância masculina (56%). Verificou-se elevada gravidade clínica (SAPS II médio de 45; SOFA inicial de 7, reduzindo para 1 à alta), com duração média de internamento de 20 dias e ventilação mecânica durante cerca de 11 dias. O delirium ocorreu em 24% dos doentes. Observou-se aumento progressivo da atividade assistencial e da taxa de referenciação: 167 consultas em 2023 (5,73%), 356 em 2024 (12,45%) e 419 em 2025 (14,8%). Foram identificadas limitações organizacionais, nomeadamente na referenciação, registos, agendamento e articulação multidisciplinar.

Conclusão

A Consulta de Follow-Up do Doente Crítico constitui uma intervenção estruturante, permitindo avaliação sistemática dos domínios da PICS, promovendo continuidade de cuidados e reforçando o papel do enfermeiro e da família. O modelo apresenta potencial para melhorar os outcomes a longo prazo, devendo ser otimizado através de estratégias organizacionais e consolidado com base em investigação e evidência científica.

Palavras-chave: Intensive Care Units; Continuity of Patient Care; Follow-up; Post-intensive care syndrome; Patient Outcome Assessment

 

Artigo:

a. Introdução

Os avanços na medicina intensiva têm aumentado significativamente a sobrevivência após doença crítica, revelando um conjunto de sequelas que podem afetar muitos destes doentes e suas famílias. A Post-Intensive Care Syndrome (PICS) engloba sintomas físicos (com elevada prevalência para fraqueza muscular entre outros), cognitivos (como o défice de atenção, dificuldade nas funções executivas e a nível da memória) e psicológicos (ansiedade, depressão e perturbações de stress pós-traumático entre outros) que surgem no contexto de doença crítica e podem persistir após a alta da unidade de cuidados intensivos e prolongar‑se por meses ou anos (Needham et al., 2012; Rawal et al., 2017; SPCI, 2024). Apesar do seu impacto substancial na qualidade de vida e na recuperação funcional, o reconhecimento de PICS permanece limitado, contribuindo para subdiagnóstico e atraso na intervenção. A compreensão dos fatores de risco, das manifestações clínicas e das estratégias de prevenção é essencial para otimizar os resultados a longo prazo e orientar abordagens multidisciplinares. Tal como se preconiza o acompanhamento de doentes com fragilidade (física, mental ou psicológica) prévia ao internamento bem como adquirida ou exacerbada durante o mesmo (Mikkelsen et al. 2020).

Em 2019, o grupo de trabalho Follow‑up no Doente Crítico da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos identificou que a maioria dos Serviços de Medicina Intensiva (SMI) a nível nacional não possuía um modelo estruturado de seguimento para doentes e familiares após a alta. A evidência recomenda que estas consultas sejam realizadas por equipas multiprofissionais, integrando pelo menos um médico intensivista e um enfermeiro do SMI. O enfermeiro desempenha um papel central na prevenção de complicações e na definição de estratégias de transição para o domicílio e para a vida habitual, apoiando tanto o doente como a família (SPCI, 2024).

Em 2022 foi criado um protocolo de consulta de Follow‑up no SMI da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, de modo a identificar os domínios mais afetados e orientar intervenções precoces, foram selecionadas ferramentas de rastreio validadas, definiram‑se critérios de referenciação e um programa que integra uma avaliação multimodal em vários momentos. Neste modelo de consulta será monitorizada a evolução funcional, cognitiva, nutricional e emocional, garantindo continuidade de cuidados e referenciação para outras especialidades em caso de necessidade (Sousa & Gomes, 2022).

Surgindo a questão de investigação: De que forma a implementação da Consulta de Follow-Up do doente crítico pode prevenir a PICS?

b. Objetivos

Gerais: Prevenir a ocorrência de PICS através de uma abordagem centrada no doente e família e promover a melhoria contínua da qualidade dos cuidados.

Específicos: implementar uma consulta multidisciplinar de follow-up; padronizar variáveis de avaliação a curto, médio e longo prazo; identificar precocemente sinais e sintomas de PICS; assegurar encaminhamento adequado; sensibilizar a equipa para práticas baseadas em resultados e analisar o feedback obtido pela pessoa e família.

c. Metodologia

O desenvolvimento e implementação da consulta de follow-up do doente crítico basearam-se na metodologia de melhoria contínua Plan–Do–Study–Act (PDSA), permitindo estruturar, implementar, avaliar e otimizar o processo assistencial de forma sistemática.

Na fase de planeamento procedeu-se à constituição de uma equipa, definição de critérios de referenciação e elaboração de um protocolo estruturado de acompanhamento. A equipa integrou médicos e enfermeiros, com apoio articulado de outras áreas, nomeadamente Medicina Física e de Reabilitação, Psiquiatria, Psicologia, Nutrição, Serviço Social e outras especialidades médicas, sempre que clinicamente indicado.

Foram definidos como critérios de referenciação: duração de internamento no SMI superior a 5 dias (incluindo reinternamentos); pontuação máxima do Sequential Organ Failure Assessment (SOFA) superior a 5; esperança de vida estimada superior a 6 meses à data de alta; presença de fraqueza muscular adquirida em contexto de doença crítica; desmame ventilatório difícil ou prolongado; ocorrência de delirium durante o internamento; e dor de difícil controlo.

O protocolo de consulta foi organizado em momentos sequenciais, sustentados pela evidência científica (Jensen et al., 2016; Rohr et al., 2021). A avaliação “baseline“, à admissão no SMI é efectuada pela equipa médica e inclui caracterização demográfica e clínica, estratificação de fragilidade pela Clinical Frailty Scale, avaliação da gravidade de doença através do Simplified Acute Physiology Score II (SAPS II) e SOFA (à admissão e à alta), bem como registo da necessidade e duração de suporte de órgão (ventilação mecânica invasiva, técnicas de substituição da função renal, ECMO).

O “momento zero”, imediatamente antes da alta do SMI, é efetuado pela equipa médica, e inclui avaliação multidimensional dos diferentes domínios de prevenção da PICS: avaliação motora (Medical Research Council [MRC] e Chelsea Critical Care Physical Assessment Tool [cPAX]), avaliação cognitiva (CAM-ICU para detenção do delirium e Montreal Cognitive Assessment [MoCA] para rastreio da disfunção cognitiva) e risco nutricional (NRS-2002), complementada por avaliação social e por outras especialidades quando indicado.

O “momento um” decorre duas semanas após a alta, efetuada por um médico e um enfermeiro. A consulta telefónica ocorre em caso de alta ou transferência extra hospital, com a pessoa ou um membro da família; em caso de internamento intrahospitalar a avaliação é presencial realizada no serviço de destino. Neste momento procede-se à avaliação clínica global, estratificação de risco de PICS e decisão sobre seguimento. Mediante avaliação clínica e discussão em equipa, são aplicados os seguintes instrumentos de rastreio psicológico e qualidade de vida, nomeadamente Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS), PTSD Checklist–Civilian Version (PCL-C) e EuroQoL-5D. Sempre que necessário procede-se ao encaminhamento para outras especialidades ou contacto com recursos da comunidade.

O “momento dois”, aos dois meses, corresponde à primeira consulta presencial estruturada, efectuada por médico e enfermeiro, e procede-se à clínica global com foco nas complicações da doença crítica que motivou o internamento no SMI, ao despiste de sinais e sintomas associados à PICS através da aplicação dos instrumentos MRC, cPAX, MoCA, HADS, PCL-C, NRS-2002 e EuroQoL-5D e à eventual referenciação para especialidades ou recursos da comunidade.

O “momento três”, entre os quatro e seis meses após alta do SMI, é efetuado por médico e enfermeiro, em formato presencial ou via telefónica, e consiste na reavaliação clínica dirigida, com decisão de alta ou manutenção em seguimento, conforme necessidade.

Relativamente à gestão de dados, o projeto cumpre os princípios éticos de confidencialidade, anonimização e proteção de dados. A informação clínica é parcialmente registada em sistema informático institucional, sendo os restantes dados armazenados em base codificada e suporte físico seguro, com acesso restrito. Cada participante é identificado por um código alfanumérico único, assegurando a pseudonimização e a conformidade com as normas éticas e legais em vigor.

A implementação ocorreu em 2023, após apresentação do projeto à equipa multidisciplinar do SMI. As consultas foram realizadas em formato presencial e telefónico por médico e enfermeiro. Foram promovidas reuniões regulares de equipa, incluindo sessões de enfermagem e reuniões multidisciplinares, com o objetivo de monitorizar o processo, identificar constrangimentos e introduzir melhorias.

Na fase de avaliação (em curso), procedeu-se à análise preliminar dos dados recolhidos desde a implementação até 2025, permitindo a caracterização da população acompanhada e a identificação de oportunidades de otimização. Paralelamente, encontra-se em desenvolvimento um protocolo de estudo observacional, com o objetivo de identificar precocemente a PICS em sobreviventes de doença crítica seguidos em consulta de follow-up.

Na fase de ação, prevê-se a disseminação dos resultados, a revisão do protocolo assistencial e a implementação de medidas de melhoria contínua, incluindo a padronização de processos, o reforço da abordagem multidisciplinar e o desenvolvimento de estratégias de formação e sensibilização da equipa.

d. Resultados / Discussão

Durante um período de três anos após a implementação da consulta de Follow-Up do Doente Crítico, foram acompanhados 275 doentes, correspondendo a um total de 942 atos de consulta. Destas, 374 foram primeiras consultas e 568 subsequentes. A população apresentou predominância do sexo masculino (56%), com idade média de 54 anos.

Relativamente à gravidade clínica, os doentes apresentaram um SAPS II médio de 45 e um score SOFA inicial médio de 7, com redução para 1 à data de alta da unidade de cuidados intensivos, sugerindo melhoria do estado clínico. A duração média de internamento foi de 20 dias, com necessidade de ventilação mecânica invasiva durante um período médio de 11 dias.

Os principais grupos diagnósticos incluíram patologias cardiovasculares, infeções e trauma. Observou-se casos de delirium durante o internamento (CAM-ICU positivo) em 24% dos doentes internados.

Desde a implementação do projeto, verificou-se um aumento progressivo da atividade assistencial. Em 2023, realizaram-se 167 consultas (65 telefónicas e 102 presenciais), correspondendo a uma taxa de referenciação de 5,73% dos 1134 doentes internados. Em 2024, o número de consultas aumentou para 356 (142 telefónicas e 214 presenciais), correspondendo a 12,45% dos 1140 internamentos. Em 2025, registaram-se 419 consultas, com manutenção do crescimento da atividade e taxa de referenciação de 14,8% entre 1128 doentes internados.

Segundo a evidência científica, a prevalência da PICS apresenta elevada variabilidade, sendo, contudo, frequentemente estimada em cerca de 50%. Numa revisão com meta-análise realizada por Ayenew et al. (2025), constatou-se que a prevalência agrupada de PICS foi de 54,35% (IC 95, 45.54-63.15), o que indica que um em cada dois doentes desenvolvem sintomas em pelo menos um dos domínios da PICS. Harmand et al. (2020), chegaram a conclusões semelhantes após revisão sistemática, concluindo que entre 50 a 80% dos sobreviventes em UCI apresentaram alterações relacionadas com a PICS a curto ou longo prazo.

Estes dados reforçam a relevância clínica da consulta de follow-up na identificação precoce de alterações físicas, cognitivas e psicológicas ao longo do curto, médio e longo prazo (Ayenew et al., 2025). Adicionalmente, sublinham a pertinência da implementação de estratégias de prevenção e reabilitação, bem como na otimização dos cuidados prestados durante o internamento no SMI.

A análise do funcionamento da consulta permitiu identificar um conjunto de limitações estruturais e organizacionais que condicionam a sua eficácia e potencial impacto clínico, nomeadamente falhas na referenciação, inconsistências nos registos clínicos, dificuldades no processo de agendamento e limitações na articulação multidisciplinar.

Com base nestes constrangimentos, propõem-se estratégias de melhoria futura, nomeadamente, a otimização dos critérios e do processo de referenciação com prioridade. A definição e eventual expansão de critérios objetivos (por exemplo, SOFA >5, internamento prolongado ou necessidade de ventilação mecânica) deverão ser acompanhadas pela implementação de sistemas automatizados de alerta clínico, nomeadamente através da integração no sistema informático, permitindo sinalizar precocemente doentes elegíveis a partir do quinto dia de internamento. Esta abordagem poderá reduzir a sub-referenciação e garantir maior equidade no acesso à consulta.

A informatização dos resultados dos instrumentos de avaliação no processo clínico do doente também poderá aumentar a fiabilidade dos dados e eliminar redundâncias associadas a registos em suporte físico. O acesso alargado à base de dados por parte da equipa multidisciplinar, incluindo enfermagem e nutrição, poderá também potenciar uma monitorização mais abrangente e contínua.

A reorganização do processo de agendamento, com reforço do apoio administrativo, constitui igualmente um ponto crítico, podendo melhorar a adesão dos doentes e reduzir perdas de seguimento. A criação de um espaço físico dedicado à consulta de follow-up poderá favorecer a eficiência e qualidade da avaliação clínica.

Outro eixo fundamental de melhoria centra-se na abordagem multidisciplinar. A integração sistemática de áreas como nutrição, reabilitação e psicologia permitirá uma avaliação mais completa da PICS (Nakanishi et al., 2024).

Adicionalmente, a incorporação de novos domínios de avaliação, como qualidade do sono e exposição ao ruído, embora ainda sem consenso na literatura, poderá contribuir para uma compreensão mais abrangente dos fatores de risco associados ao desenvolvimento de PICS (Alshammari et al., 2026).

Por fim, destaca-se a importância do investimento em formação e investigação. A dinamização de sessões formativas dirigidas a profissionais de saúde, nomeadamente nos cuidados de saúde primários, bem como a criação de grupos de apoio para doentes e famílias, poderá reforçar o impacto do projeto a nível assistencial e comunitário. A revisão de Vrettou et al. (2025), salienta a importância da formação e comunicação articulada entre a equipa de internamento de Cuidados Intensivos e a equipa de cuidados da comunidade, de forma a garantir uma continuidade de cuidados individualizada e sensível à deteção precoce de sintomas associados à PICS.

Paralelamente, a escassez de estudos na área é outra lacuna identificada na evidência científica (Ayenew et al., 2025); neste sentido a continuidade de projeto de investigação permitirá não só validar as intervenções implementadas, mas também contribuir para a melhoria contínua das práticas clínicas e para a redução do risco de desenvolvimento de PICS durante o internamento.

Em conjunto, estas medidas visam consolidar a consulta de follow-up como uma componente estruturante dos cuidados ao doente crítico, promovendo uma abordagem integrada, baseada em dados e centrada na pessoa e na família (Gonçalves et al., 2026).

e. Conclusão

A implementação da Consulta de Follow-Up do Doente Crítico no SMI da Unidade Local de Saúde de Santa Maria demonstrou ser uma estratégia estruturante com potencial para a promoção da continuidade de cuidados e identificação precoce de sinais e sintomas associados à PICS. Ao longo dos três anos de implementação, verificou-se um aumento sustentado da atividade assistencial e da taxa de referenciação, refletindo uma crescente integração desta consulta na prática clínica e maior sensibilização da equipa para a problemática da sobrevivência após doença crítica.

Os resultados obtidos evidenciam que a consulta permite caracterizar de forma sistemática os domínios físico, cognitivo, psicológico e nutricional, possibilitando intervenções atempadas e referenciação adequada para outras especialidades e recursos da comunidade. Neste contexto, reforça-se o papel central do enfermeiro na coordenação do processo, na monitorização contínua e na capacitação da pessoa e família para a gestão da recuperação.

Importa, igualmente, salientar a relevância da inclusão sistemática da avaliação e acompanhamento estruturado da família, reconhecendo o seu papel enquanto unidade de cuidados e o impacto significativo da doença crítica não só no doente, mas também nos seus familiares. A integração de estratégias dirigidas à identificação de necessidades, apoio emocional e capacitação da família poderá contribuir para melhores resultados em saúde, promovendo a adaptação ao processo de recuperação e potenciando a eficácia das intervenções implementadas.

Identificaram-se como desafios organizacionais e estruturais deste projeto potencial a necessidade de sensibilização da equipa para a referenciação de doentes, a realização de registos no sistema informático, agendamento das consultas e articulação multidisciplinar. A implementação de estratégias de melhoria, como a automatização de alertas clínicos, a informatização dos instrumentos de avaliação e o reforço da abordagem multidisciplinar, será determinante para otimizar a eficácia do modelo.

Em suma, a Consulta Follow-Up do Doente Crítico constitui uma intervenção relevante e necessária na abordagem integrada ao sobrevivente de doença crítica, com potencial impacto na prevenção e mitigação da PICS. A continuidade do desenvolvimento deste modelo, aliada à produção de evidência científica, será fundamental para consolidar práticas baseadas em resultados e melhorar os outcomes a longo prazo dos doentes e famílias.

 

Referências

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Ayenew T., Gete M., Gedfew M., Getie A., Afenigus A. D., Edmealem A., et al. (2025) Prevalence of Post-intensive care syndrome among intensive care unit-survivors and its association with intensive care unit length of stay: Systematic review and meta-analysis. PLoS One, 1;20. doi:10.1371/journal.pone.0323311.

Gomes, R., & Sousa, M. (2022). Consulta de Follow-Up – PICS. Serviço de Medicina Intensiva, Centro Hospitalar Lisboa Norte, EPE.

Gonçalves, T., Santos, M., Pontífice-Sousa, P., Antunes, V., & Bacalhau, L. (2026). Nursing Interventions for Post-Intensive Care Syndrome in Follow-Up Clinics: A Scoping Review. Nursing Reports, 16(2). Multidisciplinary Digital Publishing Institute (MDPI). https://doi.org/10.3390/nursrep16020055

Honarmand, K., Lalli, R. S., Priestap, F., Chen, J. L., McIntyre, C. W., Owen, A. M., & Slessarev, M. (2020). Natural history of cognitive impairment in critical illness survivors a systematic review. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, 202(2), 193–201. American Thoracic Society. https://doi.org/10.1164/rccm.201904-0816CI

Jensen, J. F., Egerod, I., Bestle, M. H., Christensen, D. F., Elklit, A., Hansen, R. L., Knudsen, H., Grode, L. B., & Overgaard, D. (2016). A recovery program to improve quality of life, sense of coherence and psychological health in ICU survivors: a multicenter randomized controlled trial, the RAPIT study. Intensive Care Medicine, 42(11), 1733–1743. https://doi.org/10.1007/s00134-016-4522-1

Mikkelsen, M. E., Still, M., Anderson, B. J., Bienvenu, O. J., Brodsky, M. B., Brummel, N., Butcher, B., Clay, A. S., Felt, H., Ferrante, L. E., Haines, K. J., Harhay, M. O., Hope, A. A., Hopkins, R. O., Hosey, M., Hough, C. L., Jackson, J. C., Johnson, A., Khan, B., … Sevin, C. M. (2020). Society of Critical Care Medicine’s International Consensus Conference on Prediction and Identification of Long-Term Impairments After Critical Illness. Critical Care Medicine, 48(11), 1670–1679. Lippincott Williams and Wilkins.

Nakanishi, N., Liu, K., Hatakeyama, J., Kawauchi, A., Yoshida, M., Sumita, H., Miyamoto, K., & Nakamura, K. (2024). Post-intensive care syndrome follow-up system after hospital discharge: a narrative review. Journal of Intensive Care, 12(1). BioMed Central Ltd. https://doi.org/10.1186/s40560-023-00716-w

Needham, D. M., Davidson, J., Cohen, H., Hopkins, R. O., Weinert, C., Wunsch, H., Zawistowski, C., Bemis-Dougherty, A., Berney, S. C., Bienvenu, O. J., Brady, S. L., Brodsky, M. B., Denehy, L., Elliott, D., Flatley, C., Harabin, A. L., Jones, C., Louis, D., Meltzer, W., … Harvey, M. A. (2012). Improving long-term outcomes after discharge from intensive care unit: Report from a stakeholders’ conference. Critical Care Medicine, 40(2), 502–509.

Rawal, G., Yadav, S., & Kumar, R. (2017). Post-intensive care syndrome: An overview. Journal of Translational Internal Medicine, 5(2), 90–92.

Rohr, M., Brandstetter, S., Bernardi, C., Fisser, C., Drewitz, K. P., Brunnthaler, V., Schmidt, K., Malfertheiner, M. V., & Apfelbacher, C. J. (2021). Piloting an ICU follow-up clinic to improve health-related quality of life in ICU survivors after a prolonged intensive care stay (PINA): study protocol for a pilot randomised controlled trial. Pilot and Feasibility Studies, 7(1). https://doi.org/10.1186/s40814-021-00796-1

Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos (SPCI). (2024). Ordem dos Médicos. Recomendações: modelo de seguimento SPICI e follow-up doente e família [Internet]. Lisboa: SPCI, [citado 2026 Mar 21]. Disponível em: https://www.spci.pt/media/grupos/Recomendacoes_modelo_de_seguimento_SPICI_e_followup_doente_e_familia_SPCI_e_OM_2024.pdf

Vrettou, C. S., & Mantelou, A. G. (2025). Supporting Post-ICU Recovery: A Narrative Review for General Practitioners. Diseases, 13(6). Multidisciplinary Digital Publishing Institute (MDPI). https://doi.org/10.3390/diseases13060183

 


 

TERAPIA COMPRESSIVA COMO TRATAMENTO DE RECONHECIDA EVIDÊNCIA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA

Autores:

Maria Guimarães — Enfermeira Especialista em Enfermagem Comunitária no Centro Ambulatório II da ULS de Santa Maria; maria.j.guimaraes@ulssm.min-saude.pt
Carolina Pires — Enfermeira; ULS da Região de Leiria; carolinapires9853@esscvp.eu
Teresa Silveira — Docente; Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, Área de Ensino de Enfermagem; tsilveira@esscvp.eu

Resumo

As úlceras venosas dos membros inferiores (UVMI) são uma condição crónica prevalente, com elevada morbilidade e impacto socioeconómico. A terapia compressiva é uma intervenção de primeira linha, com evidência robusta na cicatrização, no controlo do edema e na prevenção de recidivas. Esta revisão integrativa da literatura analisou técnicas de terapia compressiva em adultos com úlceras venosas e arteriovenosas. A pesquisa, nas bases MEDLINE, CINAHL e PubMed, incluiu dez estudos. Os sistemas de quatro camadas (4LB) evidenciaram superioridade no tempo de cicatrização; os de duas camadas (2LB) destacaram-se pelo conforto, adesão e custo-efetividade. UrgoK2® e os dispositivos de velcro ajustáveis mostraram-se promissores, sobretudo em situações complexas e na autogestão. Persistem lacunas, nomeadamente escassez de estudos de grande escala e a limitada padronização. A prescrição da terapia compressiva deve ser holística, centrada no utente e sustentada por avaliação clínica, integrando variáveis clínicas e psicossociais relevantes.

Palavras-chave: Terapia compressiva; Úlcera venosa da perna; Evidência.

Artigo

a. Introdução

As úlceras venosas dos membros inferiores são uma das formas mais prevalentes de feridas crónicas, com impacto significativo na qualidade de vida e nos custos em saúde. Estima-se que afetem cerca de 1% da população geral e até 3% dos indivíduos com mais de 80 anos nos 8 países ocidentais, sendo que a taxa de recorrência pode atingir 70% nos três meses subsequentes à cicatrização1,2.

A terapia compressiva é uma intervenção de primeira linha no tratamento destas úlceras, sustentada por evidência de nível I. Recomenda-se a utilização de sistemas de alta compressão, incluindo ligaduras elásticas multicamadas, sistemas inelásticos, como a bota de Unna, ou meias elásticas de compressão graduada3.

Apesar da existência de múltiplas diretrizes clínicas, persistem variações na prática, relacionadas com diferenças organizacionais, limitações económicas, formação insuficiente dos profissionais e ausência de estratégias estruturadas. A escolha do sistema compressivo deve ser individualizada, considerando o Índice de Pressão Tornozelo-Braço, a presença de edema, a tolerância do utente e a adesão ao regime terapêutico1,4,7.

b. Objetivo

Analisar os resultados da aplicação atual das diferentes técnicas de terapia compressiva em utentes com úlceras de perna de etiologia venosa e arteriovenosa.

c. Metodologia

O estudo foi orientado pela questão: “Quais os resultados da terapia compressiva em adultos com úlcera de perna de etiologia venosa e arteriovenosa?”. Baseou-se no acrónimo PIO e na pesquisa realizada em junho de 2025, na plataforma EBSCO, nas bases MEDLINE, CINAHL e PubMed, com descritores MeSH. Foram considerados artigos dos últimos cinco anos, em texto integral, em português e inglês, sobre adultos com mais de 45 anos. Incluíram-se estudos sobre terapia compressiva em úlceras venosas e arteriovenosas, excluindo outras etiologias, feridas cirúrgicas, tratamento tópico isolado e patologias associadas. Identificaram-se 193 artigos, dos quais 10 integraram a amostra final.

d. Resultados / Reflexão / Discussão

Foram analisadas dez publicações sobre terapia compressiva nas UVMI, comparadas quanto à metodologia, amostras, resultados e conclusões. Incluíram-se três ensaios clínicos randomizados, dois estudos observacionais retrospetivos, quatro estudos de caso qualitativos e descritivos, e uma revisão narrativa, evidenciando complexidade e escassez de estudos comparativos robustos.

Os estudos convergem quanto à eficácia da compressão na cicatrização, embora com variações nos tempos e taxas. A terapia compressiva acelerou a cicatrização e reduziu a dor dos utentes. Os sistemas 4LB associaram-se a cicatrização mais rápida; os 2LB, a conforto, tolerância, qualidade de vida e custo-efetividade. O dispositivo UrgoK2® e os dispositivos de velcro ajustáveis revelaram-se promissores, face à complexidade e otimizando o autocuidado.

A escolha da técnica compressiva deve considerar a tolerância, a adesão, as comorbilidades, a autogestão, o apoio social, o custo-efetividade e a disponibilidade dos serviços, não existindo superioridade comprovada de uma técnica sobre as outras. Persistem lacunas, ausência de padronização e limitada integração de variáveis qualitativas e psicossociais nos estudos.

e. Conclusão

A terapia compressiva mantém-se central no tratamento das UVMI, pela eficácia na cicatrização, no controlo do edema e na prevenção de recidivas. Sem superioridade definitiva entre técnicas, a escolha deve ser individualizada e holística, integrando evidência clínica, tolerância, autonomia, contexto socioeconómico, capacitação profissional, educação terapêutica, autogestão e suporte social adequado e contínuo.

Referências

1. Franks PJ, Barker J, Collier M, Gethin G, Haesler E, Jawien A, et al. Management of patients with venous leg ulcers: challenges and current best practice. J Wound Care. 2016 Jun;25(Suppl 6):S1-S67. doi:10.12968/jowc.2016.25.Sup6.S1.

2. Probst S, Saini C, Gschwind G, Stefanelli A, Bobbink P, Pugliese MT, et al. Prevalence and incidence of venous leg ulcers: a systematic review and meta-analysis. Int Wound J. 2023;20(9):3906-3921. doi:10.1111/iwj.14272.

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