Cláudia Sofia Rodrigues Gaspar
Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica na vertente Pessoa em Situação Crítica
Centro Ambulatório – Hospitais de Dia
A ocorrência de uma Reação de Hipersensibilidade (RHS) a fármacos antineoplásicos representa um evento crítico e imprevisível (Tipo B) que interrompe a trajetória terapêutica da pessoa com doença oncológica (Gaspar et al., 2020).
Esta descontinuidade no plano de cuidados exige uma intervenção de enfermagem centrada na gestão de transições de saúde complexas, uma vez que a interrupção do tratamento de primeira linha pode comprometer os resultados clínicos e o prognóstico da pessoa (Mezzano et al., 2014; Gaspar et al., 2020).
Neste contexto, a Dessensibilização Oncológica (DO) afirma-se como uma atuação especializada de enfermagem que permite a reintrodução do fármaco através da indução de um estado de tolerância imunológica temporária (Caiado et al., 2009). Esta intervenção reconfigura uma barreira clínica severa numa transição segura e eficaz, salvaguardando a continuidade do tratamento de eleição e, consequentemente, a sobrevida da pessoa (Gaspar et al., 2020).
Eixo Estratégico e Fundamentos da Prática
A implementação da DO enquanto boa prática assenta na evidência científica de que a progressão gradual de doses mitiga o risco de reações graves (Lenz, 2007). No âmbito do Centro Ambulatório – Hospitais de Dia, esta práxis estrutura-se em três eixos fundamentais (Vogel, 2010; Gaspar et al., 2020):
Protocolo de Atuação Especializado por Etapas
Etapa I: Avaliação, Estratificação de Risco e Preparação do Contexto
Etapa II: Gestão da Segurança Clínica e Terapêutica de Urgência
Etapa III: Execução do Protocolo de Tolerância e Vigilância Ativa
Etapa IV: Capacitação para a Continuidade e Autocuidado

A Dessensibilização Oncológica constitui uma estratégia terapêutica diferenciada que permite superar a barreira imposta pelas reações de hipersensibilidade, garantindo que a pessoa com doença oncológica não seja privada do tratamento mais eficaz para a sua patologia. O sucesso desta intervenção depende de uma abordagem sistematizada e de uma vigilância clínica rigorosa por parte do enfermeiro especialista. Ao transformar um evento crítico numa transição de saúde segura e controlada, a equipa de enfermagem assegura não apenas a continuidade do plano terapêutico, mas também a promoção da autonomia, do conforto e da esperança de sobrevida da pessoa.
Caiado, J., Rodrigues, T., Pedro, E., Costa, L., & Pereira Barbosa, M. (2009). Dessensibilização a fármacos em oncologia: Experiência de um serviço de imunoalergologia. Revista Portuguesa de Imunoalergologia, 17(1), 57-74.
Gaspar, C., Dias, O., & Frias, S. (2020). Dessensibilização oncológica em hemato-oncologia e o papel do enfermeiro: estudo de caso. Onco.News, (40), 9-18. https://doi.org/10.31877/on.2020.40.02
Lenz, H. J. (2007). Management and preparedness for infusion and hypersensitivity reactions. The Oncologist, 12(5), 601-609. https://doi.org/10.1634/theoncologist.12-5-601
National Cancer Institute. (2017). Common Terminology Criteria for Adverse Events (CTCAE) version 5.0. U.S. Department of Health and Human Services.
Ponte, S., Matos, L. V., Cabral, C. S., Fernandes, L., & Cavaco, P. (2021). Reações infusionais: relatos da experiência de um hospital de dia de oncologia. Onco.News, (42), 33-41. https://doi.org/10.31877/on.2021.42.05
Vogel, W. H. (2010). Infusion reactions: diagnosis, assessment, and management. Clinical Journal of Oncology Nursing, 14(2), 10-21. https://doi.org/10.1188/10.CJON.E10-E21