REABILITAÇÃO EM CUIDADOS INTENSIVOS: UMA ESTRATÉGIA INTEGRADA PARA A RECUPERAÇÃO PARA ALÉM DA SOBREVIVÊNCIA

 

Equipa dedicada de Enfermeiros Especialistas em Enfermagem de Reabilitação (EEER)

Equipa dedicada de Enfermeiros Especialistas em Enfermagem de Reabilitação (EEER)

Integrado na missão assistencial do Serviço de Medicina Intensiva da Unidade Local de Saúde Santa Maria, o Projeto de Enfermagem de Reabilitação da Unidade Estrutural Intervenção Crítica (UNEIC II) constitui uma resposta especializada e integrada, orientada para a recuperação funcional precoce da pessoa em situação crítica.

O crescente reconhecimento do impacto da Síndrome Pós-Cuidados Intensivos (PICS), particularmente da fraqueza adquirida em cuidados intensivos (ICU-AW), motivou o desenvolvimento do projeto por um grupo de Enfermeiros Especialistas em Enfermagem de Reabilitação da unidade. Integrado no plano global de cuidados e alinhado com o protocolo de libertação da UCI (Liberation Bundle – ABCDEF), visa a recuperação funcional da pessoa em situação crítica assente em quatro eixos: segurança e avaliação multidisciplinar, mobilização precoce e progressiva, transição para a autonomia respiratória e capacitação para a deglutição.

A aposta da Direção de Enfermagem e da liderança da UNEIC II na diferenciação dos cuidados permitiu a implementação faseada deste projeto e a constituição, em julho de 2025, de uma equipa dedicada de Enfermeiros Especialistas em Enfermagem de Reabilitação. Atualmente, dois enfermeiros asseguram diariamente a cobertura assistencial especializada das 24 camas da UNEIC II no turno da manhã, sete dias por semana. Encontra-se prevista a expansão da resposta ao período da tarde, consolidando a integração da reabilitação precoce como componente estruturante do modelo assistencial da unidade.

A natureza polivalente da unidade e a complexidade dos cuidados prestados constituem desafios acrescidos à integração da reabilitação na prática assistencial diária. Para responder a esta realidade, a articulação multidisciplinar assume-se como uma estratégia fundamental para a operacionalização do projeto, permitindo a identificação de doentes elegíveis, a definição de objetivos terapêuticos e a progressão segura dos programas de reabilitação. Este trabalho colaborativo envolve enfermeiros, médicos intensivistas, fisiatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e terapeutas da fala.

A qualidade e uniformização da prática clínica assentam na utilização sistemática de instrumentos validados, incluindo as escalas Medical Research Council (MRC), Chelsea Critical Care Physical Assessment Tool (CPAx), Escala de Agitação e Sedação de Richmond (RASS) e Gugging Swallowing Screen (GUSS), contribuindo para uma avaliação funcional objetiva, para a monitorização da evolução do doente, para uma tomada de decisão clínica fundamentada e para a continuidade dos cuidados.

Particular destaque merece também a intervenção junto de doentes submetidos a Extra Corporeal Membrane Oxygenation (ECMO), área em que a ULSSM se diferencia enquanto Centro de Referência Nacional, onde se assistiu à transição de intervenções isoladas para o desenvolvimento de protocolos específicos de mobilização e reabilitação baseados nas recomendações internacionais mais recentes.

Nos primeiros nove meses de atividade, os resultados quantitativos apurados traduzem a dimensão e o impacto assistencial desta resposta:

No limiar do seu primeiro ano de atividade, a equipa aposta na consolidação dos resultados já alcançados, na validação formal do protocolo de mobilização sob ECMO-VV, na integração de indicadores específicos de reabilitação no sistema informático e no reforço da formação contínua da equipa.

O caminho percorrido demonstra que a Enfermagem de Reabilitação na UNEIC II desempenha um papel determinante na transição de um paradigma centrado na sobrevivência para um paradigma centrado na preservação da autonomia e da qualidade de vida da pessoa em situação crítica.