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Há uma pequena biblioteca no corredor da USF Alvalade. Não tem prateleiras imponentes nem um catálogo extenso, mas tem uma história que a enfermeira Inês Almeida não esquece. Um dia, um jovem casal parou diante dela. A mulher olhava para os livros com uma vontade visível, mas hesitava. Quando Inês se aproximou e a convidou a escolher um, a resposta chegou em voz baixa: gostava muito, mas não sabia ler. Foi então que o marido, que estava ali ao lado, disse simplesmente: “Mas eu sei ler, portanto eu posso ler essa história para ti.” Juntos, escolheram dois ou três livros para levar para casa.
“Ela ficou muito contente, muito emocionada”, recorda Inês Almeida. “Eu fiquei também muito contente, porque acho que o propósito já serviu para alguma coisa. Mesmo que mais ninguém leia, acho que já serviu e que já teve o seu propósito.”
A Biblioteca Livre, criada em 2023 pelas enfermeiras Inês Almeida e Luísa Afonso, nasceu de uma ideia simples: trazer a leitura aos utentes, crianças, adultos e idosos, num espaço onde as pessoas já estão. O princípio é igualmente simples: leve um livro emprestado, deixe outro mais tarde, mas sem obrigação. O objetivo, esse, é apenas um: que leiam. Começou com livros trazidos pelos próprios profissionais. Hoje, são também os utentes que alimentam a biblioteca.
É neste detalhe que se reconhece o espírito da USF Alvalade: uma unidade que não se limita à dimensão clínica, mas que procura, de forma consistente, chegar às pessoas de maneiras que elas não esperavam. Rui Ferreira, utente da unidade, descreve-o com uma expressão que diz tudo: “saúde em andamento”. Participa regularmente nas caminhadas ao Museu da Cidade e nas sessões do Projeto Humanização dos Cuidados, e o que o surpreendeu não foi apenas o programa em si. “Desde sempre um saco de papel, mas tem lá dentro uma maçã, uma barrinha, uma garrafa de água. Acho que isso é interessante. É o cuidado prévio”, conta. “Conseguiram transformar este centro num grupo familiar, em que a gente se sente bem aqui. Não é só vir ao médico, é também sentir-me bem aqui.”
A USF Alvalade celebra hoje, quarta-feira, 30 de setembro, o seu 6.º aniversário. Criada em 2020, em plena pandemia de COVID-19, a unidade nasceu num contexto de enorme exigência e afirmou-se, desde cedo, pela capacidade de inovar sem perder de vista o essencial: as pessoas. Em 2023, após um rigoroso processo de auditoria, alcançou o estatuto de USF modelo B, reconhecimento que atesta a qualidade e a maturidade organizacional do projeto.
Atualmente, a equipa é composta por nove médicos, nove enfermeiros, sete assistentes técnicos e cinco internos de formação específica, colaborando ainda na formação pré e pós-graduada de estudantes de Medicina e Enfermagem. A unidade presta cuidados de proximidade a cerca de 16 mil utentes, tendo já realizado perto de 140 mil consultas de enfermagem. O Índice de Desempenho situa-se agora nos 88,2%, um valor que traduz, em números, o empenho de uma equipa que raramente se fica pelo mínimo.
Esse empenho vê-se também na diversidade e criatividade dos projetos que a unidade desenvolve. O Grupo de Trabalho Idade Maior da Freguesia de Alvalade promove o envelhecimento saudável e a relação intergeracional. O programa Alvalade Ativo +65 incentiva a prática de atividade física e combate o isolamento social. O Projeto RADAR trabalha políticas de longevidade assentes em três eixos: vida ativa, vida autónoma e vida apoiada. O Projeto Innobics dedica-se ao rastreio da Apneia do Sono. Nas atividades de Educação para a Saúde, a unidade chega a públicos muito diferentes, desde sessões como “Ranhos, ranhinhos e ranhocas, o que fazer?”, dirigida a pais de lactentes, até “A Enfermeira vai à Escola”, para o ensino básico, passando pela “Caminhada em Movimento ao Museu da Cidade”, seguida de visita guiada à exposição, pelo “Projeto Humanização dos Cuidados – Conversas de Saúde – Conectar e Cuidar” e pelas comemorações do Dia da Criança.
A tudo isto acresce o Jornalvalade, um jornal semestral de distribuição gratuita dirigido aos utentes, coordenado pela enfermeira Inês Almeida e pela médica Joana Abrantes, mais uma prova de que a USF Alvalade entende a comunicação com a comunidade como parte integrante dos cuidados que presta.
“A USF Alvalade é, para mim, um exemplo do que a saúde familiar pode ser quando se acredita verdadeiramente nas pessoas. Seis anos depois, olho para esta equipa com enorme orgulho, não apenas pelos resultados que alcançámos, mas pela forma como chegamos aos utentes todos os dias”, afirma Mariana Freire, Coordenadora da USF Alvalade.
Carlos Neves Martins, Presidente do Conselho de Administração da ULS Santa Maria, sublinha o significado desta data: “Seis anos da USF Alvalade são seis anos de uma equipa que nunca se contentou com o suficiente. A forma como combinam rigor clínico com proximidade humana é o que distingue esta unidade e o que nos enche de orgulho enquanto instituição. Parabéns a todos os que fazem parte deste projeto.”
Seis anos depois, o que distingue a USF Alvalade não são apenas os números. É a forma como faz as pessoas sentirem que, ali, são mais do que utentes.