
“O homem é o único animal que ri” (Aristóteles, séc. IV a.C./1984). Mas o ChatGPT diz que não, uma vez que outros animais também produzem vocalizações semelhantes ao riso. A grande diferença é que o riso humano é complexo…

A menarca devia ser um marco de crescimento, descoberta e autonomia, mas infelizmente para bastantes jovens continua a ser um acontecimento marcado pelo medo…

Carla Caetano
Enfermeira
Sofia Costa
Enfermeira Especialista em Enfermagem Saúde Mental e Psiquiátrica
Centro Ambulatório – Hospitais de Dia
“O homem é o único animal que ri”
(Aristóteles, séc. IV a.C./1984)
… mas o ChatGPT diz que não e que outros animais produzem vocalizações semelhantes ao riso. A grande diferença é que o riso humano é complexo (pode transmitir divertimento, nervosismo, ironia…) e é esta complexidade que o acompanha desde os primórdios da humanidade. Durante a Idade Média, a sátira social e política recorria ao riso, através de teatros de rua, como forma de crítica e denúncia de desigualdades sociais. Atualmente, o humor continua a desempenhar esse papel, através da televisão, redes sociais, teatro… É também uma das formas mais simples de criar empatia e aproximar pessoas.
E na área da saúde? Será o humor benéfico para quem cuida e para quem é cuidado? Poderá uma gargalhada aliviar um coração ansioso? Poderá um sorriso fazer parte de um plano de cuidados? A evidência científica demonstra que sim. O humor pode reduzir o stress e a ansiedade, diminuir a perceção da dor, melhorar a comunicação entre profissionais de saúde e doentes e contribuir para a humanização dos cuidados.
Tal como um medicamento, o humor também tem a sua posologia: deve ser administrado na pessoa certa, no momento certo e na dose certa. Não existe um “protocolo de gargalhadas” universal. É necessário perceber quando brincar, pois o humor terapêutico nunca deve ridicularizar o doente, nem menosprezar o sofrimento. Ao contrário de muitos fármacos, não necessita de receita médica, não provoca dependência nem reações alérgicas.
O filme Patch Adams – O Amor é Contagioso mostrou ao mundo que o humor, a compaixão e a proximidade são componentes fundamentais da relação terapêutica e, quando associado à empatia, à escuta ativa e à competência técnica, consegue quebrar barreiras, promover confiança e fortalecer a relação entre o profissional de saúde e o doente.
Norman Cousins (1979) foi um dos primeiros autores a chamar a atenção para o potencial terapêutico do riso, descrevendo como sessões de humor o ajudavam a controlar a dor durante uma doença grave. Desde então, inúmeras investigações demonstraram que rir promove a libertação de endorfinas, reduz o cortisol, favorece o relaxamento muscular e contribui para o bem-estar físico e emocional.
Em Portugal, a Operação Nariz Vermelho é um exemplo do uso do humor nos hospitais. A intervenção dos Doutores Palhaços ajuda as crianças a tolerarem melhor tratamentos dolorosos. E, muitas vezes, acabam também por “tratar” os pais e profissionais, através de uma boa gargalhada.
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Doente: “Sinto-me mal quando vejo sangue…” Enfermeiro: “Também eu. É melhor olharmos os dois para o outro lado!” Doente: “Espero que desta vez seja à primeira.” Enfermeiro: “Também eu. Hoje estamos os dois a torcer pelo mesmo!” |
Para o doente, o humor permite recordar que continua a ser uma pessoa, e não apenas “o senhor da cama 8” ou “a doente do quarto 12”. Um sorriso devolve identidade, dignidade e humanidade aos cuidados. Para quem cuida, o humor também é uma estratégia de autocuidado. Há dias em que o sistema informático bloqueia precisamente quando há maior volume de trabalho, ou os bolos oferecidos pelos doentes desaparecem mais rápido que uma vaga de estacionamento dentro do hospital e assim, rir transforma-se numa verdadeira competência clínica de sobrevivência. “É rir para não chorar”
No fundo, o humor terapêutico não substitui a competência técnica, a evidência científica ou os tratamentos médicos. Complementa-os, reforçando a proximidade humana e lembrando-nos de que cuidar é também estar presente, escutar, compreender e criar momentos de esperança.
Cuidar é reconhecer a pessoa por detrás da doença, aliviar o sofrimento sempre que possível e lembrar que um riso sincero pode ser tão terapêutico quanto qualquer medicamento. Um sorriso no momento certo não cura a doença, mas pode tornar o caminho um pouco mais leve. E há tratamentos que entram pela veia… e outros que entram diretamente pelo coração.

Isabel Almeida
Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica
Marisa Marques
Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Mental
USF das Conchas – ULS Santa Maria
A menarca devia ser um marco de crescimento, descoberta e autonomia, mas infelizmente para bastantes jovens continua a ser um acontecimento marcado pelo medo, vergonha e profundo desconhecimento. Embora a menstruação seja um processo normal, permanece envolto em tabus culturais e muitas vezes em falta de comunicação, que é responsável pelo sofrimento emocional e desinformação.
De acordo com um estudo da DGS, 73,3% das pessoas inquiridas referem ter recebido alguma informação sobre a menstruação, no entanto 61,6% consideram que a informação recebida foi insuficiente. 23% das nossas jovens referem que não possuem um adulto de confiança com quem falar abertamente sobre esta temática, sendo que a abordam com as amigas, as suas principais fontes de informação. E se analisarmos as gerações anteriores, o valor sobe para cerca de 40% de mulheres que no seu crescimento menstrual não possuíram apoio de uma pessoa adulta.
Se quisermos entender a situação global, a OMS e a Unicef referem que apenas 39% das escolas do mundo oferecem educação formal sobre a saúde menstrual e que vários milhões de raparigas têm a sua primeira menstruação, sem qualquer preparação prévia.
Destes dados podemos percecionar que o estigma e a culpa continuam a moldar as gerações, pois a desinformação causa vergonha, superstição e autocensura face a um acontecimento natural que faz parte do crescimento das raparigas.
Se considerarmos que os sintomas inerentes à menstruação continuam a ser responsáveis por absentismo na escola e no mundo do trabalho, podemos aferir que a menstruação impacta na qualidade de vida e na participação social das mulheres e jovens.
A intervenção dos profissionais de saúde que acompanham estas crianças na medicina geral e familiar tem então aqui uma responsabilidade de prover informação e desmistificação sobre esta temática, de uma normalização deste evento como parte integrante da vida das meninas/mulheres e que não traduz qualquer motivo de vergonha.
Garantir que uma jovem chega à menarca de forma informada, acompanhada e tranquila é uma responsabilidade social e uma intervenção essencial em saúde pública, que cabe aos pais, família, professores e profissionais de saúde. Como tal, esta temática deve ser desenvolvida com as jovens de forma a desmistificar e a normalizar a menstruação como apenas mais um processo inerente a ser mulher, sem vergonha e sem estigma.
Ajudar as mães a também elas vivenciarem esta fase do ciclo reprodutivo, de forma mais normalizada, promovendo a conversa aberta com as suas filhas, possibilitando o crescimento mútuo e romper de vez com o silêncio que muitas vezes domina neste tema.